Encontrando Cristo no relato da aliança de Deus com Abrão


Gênesis 17.1-27

Essa narrativa é o relato sobre Deus firmando a sua aliança com Abrão e com sua descendência. O termo “aliança” ocorre treze vezes nessa passagem dada a sua importância na mente do escritor.

Da mesma forma, a narrativa relata a resposta obediente de Abrão ante a ordem da circuncisão sua e de todos os homens de sua casa. Nesse relato, é possível visualizar elementos que apontam para Cristo. Antes, no entanto, é vital que compreendamos o tema e o objetivo do autor ao registrar essa narrativa.


Tema e objetivo
Embora o termo “aliança” apareça com frequência conforme já vimos, a circuncisão é o assunto principal. Ela é o sinal externo da aliança e Deus exigiu que isso fosse feito. A narrativa deixa claro que Abraão obedeceu a ordem circuncidando todos de sua casa.

Dessa forma, o tema pode ser descrito da seguinte maneira:

“Deus Todo-poderoso firma com Abraão e sua semente uma aliança perpétua na condição de que todos os homens sejam circuncidados como sinal de participação na família da aliança” (GREIDANUS, 2009, p. 190). 

Moisés, ao relatar isso, tinha como objetivo incitar o povo a proceder da mesma forma como Abraão, ou seja, persuadir o povo a guardar a aliança do Senhor através do rito da circuncisão. (GREIDANUS, 2009, p. 190).

Tendo essas informações preliminares em vista, partiremos agora para identificar a relação de elementos que estão intimamente relacionados com a pessoa de Cristo e sua obra. 

Como encontramos Cristo nesse relato? Para enxergarmos a pessoa de Cristo nesse relato, temos que analisar o texto através das seguintes lentes:

1. Progresso histórico-redentor
É possível enxergar a pessoa de Cristo através do processo histórico da aliança que Deus fez com Abraão até encontrar seu ápice em Jesus. Deus afirmou sua aliança com Abraão (Gn 17.7).

Jeremias depois anunciou que Deus firmaria uma nova aliança com a casa de Israel para ser o seu Deus (Jr 31.31-33). Finalmente, essa nova aliança é revelada em Jesus (Lc. 22.20). O autor de Hebreus confirma que Cristo é o mediador dessa nova aliança (Hb 9.15). 

Outro elemento que se relaciona com Cristo é a circuncisão como sinal da aliança. Isso permaneceu até o primeiro Concílio de Jerusalém, ocasião na qual os discípulos isentaram os gentios dessa exigência (At 15.1,19). Jesus, ao ordenar a evangelização, incluiu o batismo e não a circuncisão (Mt 28.19).

Tal como a circuncisão, o batismo passou a ser o sinal externo da aliança com Deus. A Confissão de Fé de Westminster declara que o batismo serve como “sinal e selo do pacto da graça, de sua (da pessoa batizada) união com Cristo” (CFW 28.1). Além disso, outro ponto que merece destaque é fato de que circuncisão era aplicada apenas aos homens, o batismo, no regime da nova aliança, é extensivo às mulheres. 

Finalmente, o ato da circuncisão aponta para a obra de Cristo na vida do homem. Paulo escreve:

“Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.11,12). 

Ao comentar esse texto, Willian Hendriksen contribui significativamente demonstrando que a circuncisão de Cristo no coração do homem é mais profunda e transformadora que a antiga circuncisão.

Segundo ele, a circuncisão de Cristo foi obra do Espírito Santo e não obra feita por mãos humanas como era a antiga circuncisão. A circuncisão de Cristo é interna, a antiga, era um ato externo. A circuncisão feita por Cristo constitui-se no despojamento da natureza pecaminosa, a antiga, constituía-se em remoção de pele (HENDRIKSEN, 1993, p. 19).

2. Promessa e cumprimento
Essa narrativa contém promessas que encontraram o seu cumprimento em Cristo. Em outro estudo, já demonstramos que a promessa de que Abraão seria pai de uma grande nação se cumpriu em Cristo quando este ordenou seus discípulos para que fizessem discípulos de todas as nações (Mt 28.19).

O mesmo ocorre em relação à promessa sobre a possessão eterna da terra. Essa promessa relaciona-se com a expectativa de adentrarmos à nova terra e novos céus por ocasião da segunda vinda de Cristo.

Deus também promete a Abraão que dele procederiam reis (Gn 17.6). Essa promessa se cumpre plenamente em Cristo, uma vez que este é descendente étnico de Abraão e exerce o seu reinado com absoluta autoridade ao lado do Pai (Lc 3.34; Ef 1.20,21; 1 Cor 15.25; Hb 1.13).

Conforme aponta Wayne Grudem, “essa autoridade será mais plenamente reconhecida pelas pessoas quando Jesus voltar à terra com poder e grande glória para reinar [...]. Naquele dia ele será reconhecido como o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores (Ap 19.11-16) (GRUDEN, 1999, p. 527).

Além disso, Deus prometeu “e serei seu Deus” (v. 8). Essa promessa se cumpre em Cristo uma vez que por meio de seu sacrifício, ele reconciliou Deus com o seu povo escolhido desde os tempos eternos (Ef 1.4,5; 2.14).

3. Analogia
É possível verificar a similaridade de Gn 17.1-27 com Cristo considerando o objetivo do autor acerca da ordem sobre a circuncisão. Sidney Greidanus observa:

“Assim como Deus nessa narrativa persuadiu Israel a aplicar o sinal da aliança (a circuncisão) ao povo de Deus, Cristo também persuade a sua igreja a aplicar o novo sinal da aliança (o batismo) ao povo de Deus [...] (Mt 28.19)” (GREIDANUS, 1999, pp. 192-193).

Sendo assim, a mesma obediência que deveria ser demonstrada pelo povo no deserto quanto à circuncisão, agora a igreja precisa demonstrar em relação ao batismo. 

Conclusão
Gn 17.1-27 é uma narrativa extremamente. Ela se refere à fidelidade de Deus à sua aliança, como também contém uma estipulação para ser alvo dos benefícios da aliança. No entanto, seu conteúdo não se restringe apenas à época de Abraão, de Moisés, o escritor, e dos israelitas, os receptores primários do texto, antes se estende até os dias de hoje. E isso, pelo fato de que todo o texto tem como objetivo apontar para o Messias, aquele que é o supremo Mediador da Aliança.

Referências Bibliográficas
A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, São Paulo, Cultura Cristã, 2003.
GREIDANUS, Sidney. Pregando Cristo a partir de Gênesis. São Paulo, Cultura Cristã, 1999. 
GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática. Atual e exaustiva. São Paulo, Vida Nova, 1999.
HENDRISKSEN, Willian. Comentário do Novo Testamento: Colossenses e Filemon. São Paulo, Cultura Cristã, 1993.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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