Princípios que regem a pregação


Ezequiel 2.1-7

O ato de pregar não pode ser concebido como uma atividade sem programação e preparo devido. Quem pensa que pregar é somente abrir a boca e falar se engana, pois antes que qualquer palavra seja proferida é necessário que se saiba como isso deve ser feito.

Mas será que a Bíblia dá o devido esclarecimento sobre isso? É isso que veremos a partir do ministério de Ezequiel.



Ezequiel, contemporâneo de Daniel, foi um sacerdote e profeta que falou aos judeus durante o exílio babilônico. Ele foi levado para a Babilônia ainda jovem na primeira deportação. A segunda ocorreria 11 anos mais tarde aproximadamente.

Seu ministério constituía em alertar o povo no cativeiro para que se lembrassem do motivo pelo qual foram levados de Jerusalém para aquele lugar. Nos onze primeiros capítulos de seu livro, Ezequiel fala do juízo e da condenação de Deus por causa do pecado. Além disso, ele anuncia o cerco final de Jerusalém, sua destruição e o destino dos sitiados. 

O texto lido trata do comissionamento de Ezequiel para ser profeta do Senhor dentre os exilados. Nesta passagem é possível visualizar princípios que são fundamentais no serviço de proclamação da palavra do Senhor. Mas que princípios são estes? Vejamos:

1 - OUÇA (vv.1,2). 
 “Esta voz me disse: Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo. Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me falava”. 

O princípio da audição está patente dentro do contexto do chamado de Ezequiel para ser profeta. Note que o profeta afirma no final do v.2 que ele ouvia o que lhe era dito. 

Nesta época havia dentre os judeus exilados a idéia de que o período do exílio seria curto e que Jerusalém não seria destruída. Essa idéia era reforçada com o surgimento de falsos profetas que encorajavam as pessoas para crerem nisso.

Neste contexto de mentiras e falsas esperanças, Deus manifesta-se a Ezequiel para anunciar o que de fato estava para acontecer. Ou seja, que Jerusalém e seu templo seriam destruídos e as pessoas que ali estavam também seriam levadas para a Babilônia. 

Portanto, era necessário que Ezequiel ouvisse a voz de Deus para que soubesse aquilo deveria ser dito. Com isso aprendemos que a verdade de Deus somente pode ser anunciada se aquele que anuncia ouve de Deus o que ele tem a dizer. 

Esse princípio norteou o ministério de Cristo, tanto é que em João 15.15 ele declara: “Tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”.

A partir disso, aprendemos três lições importantes.

a) Aquilo que sai pelos nossos lábios não pode ser outra coisa senão transmissão fiel da palavra de Deus. 

b)  Só teremos o que dizer se ouvirmos a Deus. Essas duas lições se fazem presentes na instrução de Paulo dada aos colossenses. Assim ele escreveu: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria.” Cl 3.16

c) O que falamos com nossos lábios não pertence a nós mas a Deus. Em seu ministério, Jesus reconheceu isso e disse: “O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou.” (Jo 7.16). Há uma frase que diz: A autoridade do Pregador reside neste fato: A mensagem não é dele, mas de Deus! ...

2 - COMPREENDA (vv. 3,4).
“Ele me disse: Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se insurgiram contra mim; eles e seus pais prevaricaram contra mim, até precisamente ao dia de hoje. Os filhos são de duro semblante e obstinados de coração; eu te envio a eles, e lhes dirás: Assim diz o SENHOR Deus.

Esse segundo princípio decorre do primeiro. A compreensão é resultado de uma audição atenta. Foi isso que ocorreu no caso de Ezequiel no contexto de todo o livro. 

O que deveria ser compreendido por Ezequiel? Primeiramente ele deveria entender quem seria os seus ouvintes. Eram nações rebeldes (v.3) e os filhos são de duro semblante e obstinados de coração (v.4). Tratava-se de pessoas rebeldes e teimosas que não compreendiam que o exílio era uma punição de Deus por causa do pecado.

Essa cegueira resultava na crença de que o exílio não duraria muito tempo, que Jerusalém não seria destruída e logo voltariam para casa. Certamente, tais pessoas o perseguiriam. Ezequiel deveria estar cinte disso.

Em segundo lugar, Ezequiel deveria compreender o conteúdo da mensagem que receberia de Deus para transmitir ao povo. Note a fórmula típica que dava autoridade ao pronunciamento: “Assim dirás” (v.4). E o que Deus tinha a dizer era exatamente o contrário do que o povo pensava. Acreditavam que Jerusalém, por ser o lugar o escolhido por Deus, jamais seria abatida.

No entanto, Deus anuncia a queda da cidade (Ez 4;5;9). E anúncio desta punição visava o arrependimento dos pecados para os quais eles estavam cegos. Anos mais tarde Jerusalém foi destruída, o templo queimado e o restante dos moradores foram levados para a Babilônia (2 Rs 25).

Portanto, Ezequiel deveria compreender quem seriam seus ouvintes e o conteúdo da mensagem que iria pregar. Essa realidade não foi diferente em relação a Jesus. Cristo compreendia que seus ouvintes eram rebeldes e obstinados. Tão rebeldes e tão obstinados que o levaram para a cruz. João deixa claro isso dizendo: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.” (Jo 1.11).

Quanto sua mensagem, Jesus compreendeu qual deveria ser o conteúdo de sua mensagem – de evangelização, de libertação e de restauração, do reino de Deus (Lc 4.18), de arrependimento e do reino (Mt 4.17).

Naturalmente, isso nos ensina duas lições: 

a) Devemos compreender que nossos ouvintes, em sua grande maioria, serão pessoas rebeldes, cegas e obstinadas. Por mais que possam ouvir com simpatia nossa pregação, o fato de permanecerem no mesmo padrão de vida, comprovam tal rebeldia. Esse é um dos motivos pelos quais, nem sempre vemos uma resposta positiva ao evangelho pregado por nós.

b) Devemos estar cientes de que a mensagem pregada por nós deve ser apenas o evangelho. Isso já ficou claro. Portanto, não nos é dado o direito de tentar embelezar o evangelho para torná-lo mais atraente ao ouvinte. Devemos pregá-lo tal como nos é revelado pelo Senhor em sua palavra. Lutero certa vez disse: “Todo ensinamento contrário às Sagradas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres."

3 - ANUNCIE APESAR DA REBELDIA (vv. 4-7). 
“Os filhos são de duro semblante e obstinados de coração; eu te envio a eles, e lhes dirás: Assim diz o SENHOR Deus. Eles, quer ouçam quer deixem de ouvir, porque são casa rebelde, hão de saber que esteve no meio deles um profeta. Tu, ó filho do homem, não os temas, nem temas as suas palavras, ainda que haja sarças e espinhos para contigo, e tu habites com escorpiões; não temas as suas palavras, nem te assustes com o rosto deles, porque são casa rebelde. Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes.”
Anunciar a mensagem de Deus independente do ouvinte e de sua reação é outro importante princípio exibido no texto. No contexto, tratava-se de pessoas rebeldes. Note a ênfase nisto nos vv. 4-7. A palavra obstinado (teimoso), aparece no v. 4 e rebelde nos vv. 5-7. O v. 6 fala também de “sarças”, “espinhos”, “escorpiões”. Esses termos se referem à perseguição que o profeta sofreria por causa da rebeldia do povo. 

Mesmo diante desse quadro o Senhor ordena: Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir. Em outras palavras, pregue independente crerem ou não. De fato, a vida de Ezequiel não foi fácil, visto que seus ouvintes não faziam o que ele dizia (Ez 33.30-32). Segundo a tradição, ele foi morto por um príncipe por pregar contra a idolatria. 

Portanto, o princípio de pregar sem considerar a reação do ouvinte é um princípio claro no texto. Da mesma forma podemos verificar isso na vida de Jesus. Sua missão era a de evangelizar todas as pessoas independentemente das reações das mesmas.

Se por um lado, houve pessoas se arrependeram com a sua mensagem, por outro, também houve pessoas que não creram em sua mensagem. Em João 12.37 nós lemos: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele.” Além disso, por conta de seu ensino, Cristo foi levado à cruz e morto. 

O apóstolo Paulo reconhece essa incumbência e escreve: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Cor 9.16).

À luz destas coisas fica claro para nós algumas lições. São elas:

a) Todos nós somos incumbidos de pregar independentemente de como nosso ouvinte receberá nossa pregação. Cada cristão é por natureza um missionário. Sobre essa natureza Spurgeon faz um pertinente alerta: “Todo cristão ou é um missionário ou é um impostor”.

b) Não espere boa recepção de seus ouvintes. Se homens como Ezequiel, Jeremias e Jesus foram perseguidos, certamente estaremos suscetíveis a isso. Jesus já nos alertou dizendo: “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Jo 15.20).

c) Não se iluda com a simpatia com que recebem a mensagem. Pessoas foram até Ezequiel para ouvi-lo sem, contudo se converterem. Simpatia não significa necessariamente convencimento. Jesus ensinou sobre isso na parábola do semeador em Mt 13.20,21. Há aqueles que recebem a mensagem com a alegria, mas com o tempo, essa palavra logo se dissipa.

d) Não espere um grande número de convertidos. Isso não quer dizer que Deus não converta multidões. Isto já foi relatado no livro de Jonas. Também é relatado em Atos com o sermão de Pedro (At 2.14-41). Entretanto, via de regra apenas alguns atendem ao chamado para o arrependimento. Jesus já nos precaveu dizendo: “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt 22.14).

Conclusão
A pregação cristã é norteada por princípios. De acordo com o que aprendemos em Ez 2.1-7 tais princípios são: Ouça, Compreenda e Anuncie a verdade apesar da rebeldia. Que Deus nos habilite para observarmos cabalmente tais princípios e nos faça vibrantes no exercício da pregação do evangelho.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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