O princípio do Pacto, do Reino e do Mediador em Isaías 12.1-6


O teólogo Gerard Van Groningen em sua obra “Criação e Consumação” afirma que toda a Bíblia é unificada por aquilo que ele chama de cordão dourado. Este cordão é constituído por três dobras as quais ele identifica como sendo o reino, o pacto e o mediador. (GRONINGEN, 2002, p. 190). 


Diante disso, este artigo denominado “o princípio do mediador, do pacto e do reino Isaías 12.1-6” tem como objetivo identificar estas três dobras. Para isso, executará uma investigação sobre como se desenvolvem os princípios do mediador, do pacto e do reino na seção de Is 12.1-6. Isso será feito para responder a seguinte questão: De que maneira tais princípios são desenvolvidos na referida passagem? Certamente, eles se fazem presentes, ainda que não explicitamente. 

Este artigo ainda que pequeno e limitado será norteador para identificar o cordão dourado em Is 12.1-6. Para cumprir com este objetivo, o método usado será a investigação exegética e bíblico teológica do texto à luz da promessa feita em Is 11. 

A obra descrita acima de Groningen servirá de norte para a realização da referida pesquisa. Se por um lado ele auxilia na identificação geral do cordão dourado, por outro, sua obra não é muito elucidativa em relação a Isaías 12.1-6. Por isso, será necessário recorrer a outros estudiosos Como Luiz Alonso Schokel e Jan Ridderbos para perceber a presença do cordão dourado no referido texto. 

Enfim, a pesquisa identificará o princípio do mediador, do pacto e do reino em Is 12.1-6. Afirma-se que estes princípios, ainda que não explicitamente, se fazem presentes na referida seção. Ressalta-se que o exame de Is 12.1-6 pode ser ainda mais aprofundada considerando aspectos da poesia hebraica que em toda a sua construção carrega sobre si importantes elementos que ajudam a elucidar a questão relacionada ao cordão dourado presente em Is 12.1-6.


O CONTEXTO DE ISAÍAS 12.1-6
A atividade de Isaías ocorreu durante o período dos reinados de Jotão (740-735), Acaz (735-727) e Ezequias (727-698). Nesta época se misturaram tempos de calmaria, turbulência e momentos de submissão e independência da Assíria. (SCHOKEL, 2004, p. 97). 

De modo geral, a mensagem de Isaías é proferida num contexto de idolatria, grandes tensões e mudanças políticas internacionais. O povo da aliança foi infiel a Deus e por isso havia sofrido a maldição desta aliança. Mesmo assim, Deus manifestava-se no sentido de não cancelar que aliança estabelecida desde os primórdios. 

Por conta disso, os pronunciamentos de Isaías mesmo sendo dirigidos ao Reino do Norte, logo se dirigiram para o Reino do Sul (GRONINGEN, 2006, p. 187). A figura do Messias está sempre presente nos escritos de Isaías, ainda que não explicitamente. Ele será aquele que dará fim à oscilação do trono de Davi e promoverá a justiça e o direito na terra (SCHOKEL, 2004, p. 110). 

A perícope de Is 12 compreende o período de Acaz. Durante seu reinado, a situação pacífica torna-se ameaçada pelos preparativos de Damasco e Samaria contra Jerusalém que mais tarde desembocou na guerra Siro-efraimita. Ele era idólatra e por isso sofreu os castigos de Deus como constantes invasões em seu reino. Em sua época, Isaías, profetiza o juízo (Is 8), anuncia a esperança messiânica (Is 7, 9, 10, 11) e a destruição da Babilônia (Is 13, 14) (GAGLIARDI, 1995, p. 231).

Em Is 12.1-6 visualiza-se aspectos que relacionam-se com os princípios do mediador, do reino e do pacto, de sorte que pode-se afirmar que o texto em questão trata-se de uma reafirmação de tais princípios que se fazem presentes em toda Bíblia. A questão que vêm à baila é: Como isto ocorre? A seguir, abordar-se-ão tais princípios e a maneira como eles se apresentam em Is 12.1-6. 

A. O PRINCÍPIO DO MEDIADOR
Conforme define Dr. Mauro Fernando Meister, o termo “mediador” significa aquele que faz a união de duas partes, possuindo também o sentido de representante (MEISTER, 2013, p. 48). É aquele que “recebeu os mandatos e as responsabilidades de cumprir a vontade, o plano, a meta e os propósitos de Yahweh, que iniciou e manteve o seu pacto” (GRONINGEN, 2006, p. 193). 

Como pode ser notado, a palavra “mediador” relaciona-se intimamente com aliança e está presente em 12.1-6. Afirma-se isso, porque em primeiro lugar, o próprio Isaías cumpriu com tal função. No Antigo Testamento, todos os profetas serviram de mediadores do pacto (GRONINGEN, 2002, p. 194).[1] 

Logo, Isaías, trabalhando nesta função, atou como porta-voz de Deus, ao proclamar a mensagem acerca dos atos de Yahweh, de seus planos e vontades, e de sua fidelidade à aliança (GRONINGEN, 2006, p. 180). O objetivo de Isaías, conforme salienta Schokel, é a conversão de seus contemporâneos, e a partir desta, restabelecer a aliança entre Deus e seu povo (SCHOKEL, 2004, pp. 109-110). 

Em segundo lugar, outra figura é apresentada em Is 12.1-6 como aquele que executa a função de mediador. Trata-se da figura do Messias. Tal afirmação é possível a partir da análise do contexto imediato no qual está inserido o cântico de Is 12.1-6. Conforme aponta Teodorico Ballarini, esta perícope consiste em uma doxologia que fecha uma série de oráculos do Emmanuel (11.1-16) (BALLARINI, 1974, p. 96). 

A referida passagem inicia-se com a frase: aWhh; ~AYB; T'r>m;a'w (E dirás naquele dia). Se por um lado ela dá início a uma nova unidade literária, por outro, tal construção deixa claro que Is 12.1-6 está ligada ao assunto desenvolvido nas duas perícopes anteriores. O vav consecutivo em Is 12.1 indica íntima conexão tanto com texto antecedente comunicando a idéia de consequência. Isto é, o cântico é produto dos atos salvíficos de Yahweh por meio de seu mediador – o renovo. 

Em Is 11.1-16, o profeta descreve um mundo vindouro sem guerras constituído pelos remidos das nações com o remanescente de Judá e liderado pelo descendente de Davi (HALLEY, 1970, p. 263). O caráter escatológico das profecias em Is 1.1-16 dizem respeito ao cumprimento das promessas da aliança feitas declamadas por Noé, concedidas tanto a Abraão quanto a Davi. [2] 

Segundo Isaías, cabe ao renovo a prerrogativa exclusiva de cumprir tais promessas. O Messias, portanto, segundo indica o profeta, é o Mediador da aliança (GRONINGEN, 2006, pp. 188, 189). O mesmo ocorre n v. 4 (aWhh; ~AYB; ~T,r>m;a]w: - E direis naquele dia). Isto indica que cântico ocorrerá no mesmo período da salvação (naquele dia) em que o povo será alvo da libertação. Ao mesmo tempo, ele será uma realidade resultante da libertação impetrada pelo renovo. Portanto, o povo somente cantará o conteúdo de Is 12.1-6 após experimentar a salvação mediante a manifestação do Mediador (renovo – Is 11.1-10) (RIDDERBOS, 1995, p. 142).

Em terceiro lugar, outro elemento que tem a função de mediador da aliança em Is 12.1-6 é o próprio povo constituído pelos remidos das nações e pelo remanescente de Judá. Groningen deixa claro que a nação de Israel foi chamada para executar a função de mediador (GRONINGEN, 2002, p. 194). 

No v.4, o profeta registra que parte do conteúdo do cântico é composto pela conclamação para que entre os povos fossem conhecidos os feitos do Senhor. Portanto, o cântico é ao mesmo tempo, uma reafirmação da função de mediador, como também, uma conclamação para que os redimidos executassem tal função ao proclamar à “toda a terra” as coisas majestosas feitas pelo libertador (v.5). 

Deus, por conta de sua fidelidade à aliança, nunca teve a intenção de divorciar-se de seu povo, nem mesmo destruí-lo e é por isso que houve o resgate do exílio. 

Diante disto, o povo em reconhecimento da manifestação da fidelidade de Deus à aliança, é conclamado para proclamar aos povos que o nome de Yahweh é excelso (v.4), que seus atos são portentosos (v.5) e por isso, Ele é a sua salvação (vv. 2, 3). 

Portanto, o povo age como representante da aliança, ao proclamar a fidelidade de YAHWEH à aliança, que foi expressa pela libertação do exílio babilônico.

Esta mesma dinâmica é perceptível no Novo Testamento onde tanto Cristo é mediador da aliança quanto sua igreja. Este conceito fica claro através das palavras de Cristo quando da instituição da Santa Ceia em Lc 22.17 e 1 Cor 11.26. 

As palavras expressas em Lucas demonstram que o sangue de Cristo era a “nova aliança”. Com esta construção, Jesus se refere ao fato de que aliança de Deus já não é uma exclusividade de Israel, mas sim, de todos os crentes. 

Por outro lado, o estabelecimento de tal aliança somente é possível por meio do derramamento de sangue. “Sem derramamento de sangue não há remissão (Hb 9.22; cf Ef. 1.7), por isso também, nenhuma aliança, nenhuma relação especial de fraternidade entre Deus e seu povo” (HENDRIKSEN, 2003, p. 565). Além disso, Cristo é o instrumento para o cumprimento da promessa de que povos procedentes de todas as nações constituiriam uma só nação (Cf. Gn 12.2; 22.17,18). [3] 

Na narrativa de Lucas não aparece a ordem de proclamação, o que ocorre somente em 1 Cor 11.26. [4] Com isso, Paulo objetiva salientar que ao celebrar a ceia, a igreja proclama a morte de Cristo e a participação na nova aliança que somente foi possível mediante este sacrifício (KISTEMAKER, 2004, pp 554,555). Desta forma, a igreja, assim como Israel, atua no papel de mediador, ao anunciar a fidelidade de Deus à sua aliança que fora firmada desde os primórdios. [5] 

B. O PRINCÍPIO DO PACTO
O princípio do pacto é outro elemento que se faz presente em Isaías 12.1-6. Tal afirmação reside-se no fato de que ele se faz presente não só no livro de Isaías como em toda a Escritura. A relação de Yahweh com o seu povo sempre foi pactual. 

Foi exatamente isto que ocorreu em relação a Adão e Eva, que embora tenham quebrado o pacto por conta da desobediência, Yahweh manteve-se fiel à aliança outrora feita não impetrando sobre eles a maldição da aliança – a morte (Gn 2.16,17; 3.15,16). 

No que diz respeito a Israel, Yahweh estabeleceu uma aliança nos moldes da suserania do Antigo Oriente na qual era requerida a obediência às leis do Senhor (PACKER, 1999, p. 84). Na apresentação da Lei, Moisés instruiu o povo sobre o fato de que Deus o havia libertado para viver em aliança com Ele (GRONINGEN, 2006, p. 171).

Como já ficou claro, Isaías, assim como os demais profetas, atuou como mediador da Aliança. Através de seu ministério, Yahweh advertiu o povo que havia violado o pacto adotando más condutas que envolviam todos os aspectos da vida, tanto espirituais, quanto sociais e culturais (GRONINGEN, 2006, pp. 173-174). 

Apesar desta infidelidade, mesmo Deus tendo temporariamente divorciado de sua esposa através do exílio, suscitaria um libertador que traria de volta o povo do cativeiro. Findo a separação, o relacionamento estabelecido na aliança teve sua continuidade visto que a jamais foi quebrada (GRONINGEN, 2006, p. 183).[6]  Consequentemente, o resgate de Yahweh por meio de seu mediador, haveria de promover tamanha exultação que eclodiria no cântico registrado em Is 12.1-6. 

Jan Ridderbos aponta que Is 12 contêm elementos tanto do cântico de Moisés registrado em Êxodo 15, quanto do Salmo 118, os quais estão concatenados intimamente com a aliança (RIDDERBOS, 1995, p. 142).[7] Carlos Ignácio González afirma que uma das causas da libertação da escravidão do Egito foi a fidelidade de Yahweh à sua aliança. 

Assim ele afirma: De fato, Javé tirou o seu povo do Egito por fidelidade a essa promessa, para firmar com ele a Aliança: “Ouviu Deus os seus gemidos e lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacó (Ex 2,24)” (GONZÁLEZ, 1992, p.53). 

Em relação ao Salmo 118, Schokel aponta para o fato que ele possui fortes elementos que o localizam dentro do período pós-exílico. Nele, o orante relembra que numa situação difícil, orou ao Senhor e este respondeu o livrando poderosamente das mãos do adversário. O livramento da opressão deve-se, fundamentalmente, à lealdade de Yahweh à aliança que é descrita, especialmente, nos três primeiros versículos deste salmo (SCHOKEL, 1998, pp. 1411, 1415) [8].

Ao incluir partes dessas passagens, fica claro que a volta do cativeiro representa na visão de Isaías o término da ira do Senhor. Exatamente por isso ele declara no v. 1: “Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.” 

O término de tal ira que culminou na libertação representa o processo final de purificação e, ao mesmo tempo o cumprimento das promessas da aliança. Groningen afirma: “Ele [Yahweh] cumpriria suas promessas mesmo quando tivesse que executar a maldição da aliança como meio de purificação e santificação” (GRONINGEN, 2006 p.187). 

A salvação, repetidamente mencionada nos vv. 2, 3 é o tema dominante no cântico. [9] Yahweh é metaforicamente apresentado no cântico com sendo uma “fonte” (v.3). Seu objetivo com isto é demonstrar que a origem da salvação da qual o povo foi objeto era a pessoa de Yahweh. Mesmo o povo sendo infiel, o Senhor não se esqueceu da aliança feita e ratificada com Adão, Noé e Abraão e Davi na qual previa que seria levantado um povo “singular, separado, precioso e santo” (GRONINGEN, 2006, p. 186). 

É por causa deste propósito estabelecido por Deus, que seu povo é salvo do cativeiro. Portanto, a salvação manifestada por meio dos atos portentosos de Deus (vv. 4, 5) está ligada ao fato de que Yahweh permaneceu fiel à aliança outrora firmada. Tal fidelidade expressa na salvação produz gozo e deve ser proclamada a toda a terra (vv.4,5). 

A fidelidade é também expressa pelo fato de que Deus não somente não abandonou o seu povo, como também se faz presente no meio dele (v.6) para viver em plena união. O casamento de Yahweh com seu povo é finalmente restabelecido. 

Conforme descrito no tópico anterior, no Novo Testamento, Cristo é a personificação da fidelidade de Yahweh à sua aliança. A respeito disso, Confissão de Fé de Westminster faz relevante declaração: 

Tendo-se o homem tornado, pela sua queda, incapaz de ter vida por meio deste pacto, o Senhor dignou-se a fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça; neste pacto da graça ele livremente oferece aos pecadores a vida a e a salvação por meio de Jesus Cristo (CFW, VIII, III).[10]

C. O PRINCÍPIO DO REINO
O último princípio presente em Is 12 é o reino que está inseparavelmente ligado aos princípios abordados acima. Conforme observa Groningen, “o reino não existe nem atua sem o pacto, para ser e atuar como pacto, tem seu instrumento, o mediador” (GRONINGEN, 2002, p. 192). Como não poderia ser diferente, é o contexto imediato tem papel fundamental para elucidar a questão. 

Em Is 11, o profeta anuncia o advento de um rei justo (11.1-5). Seu oráculo direciona-se para Acaz, um rei que temia os monarcas de Aram e Israel e por isso fazia aliança espúria com a Assíria em busca de apoio militar e político. Neste contexto, o profeta mais uma vez faz uso das metáforas “ramo” ou “renovo” (4.2-6), tronco (6.3) para referir-se ao rei que, diferentemente de Acaz, reinará com justiça (GRONINGEN, 1995, p. 505). Todo o capítulo 11 tem como intuito anunciar o advento deste rei desde sua linhagem até a extensão de seu domínio. Isto é, ele seria de descendência davídica, perfeito em seus atributos e governaria todas as nações (GRONINGEN, 1995, 507).[11]

Como já tem sido dito, Is 12.1-6 é uma celebração a Deus feita pelo povo da aliança que foi alvo dos atos salvíficos de Deus executados através de seu mediador. Esta seção é, portanto, o cântico entoado pelos súditos do reino do Messias que foram objetos de grande salvação. 

Outro elemento, no entanto ajuda a perceber o princípio do reino. Trata-se da referência a Sião (v. 6). Tal menção elucida claramente o princípio do reino em Is 12.1-6 por conta do seu sentido no Antigo Testamento. Conforme aponta Laird Harris, a palavra Sião “às vezes inclui a nação toda, a própria comunidade da aliança” (HARRIS, 1998, p. 1282). 

Especialmente em Isaías, Sião é descrita como o lugar de atos salvíficos de Yahweh. Embora a glória de Yahweh tenha se retirado, assim como no êxodo, ela retornará, sendo isto reconhecido nos vv. 1,6. Aquele que estivera ausente une-se novamente ao seu povo para reinar sobre ele por meio de seu mediador. 

Este governo significa remissão e purificação dos pecados (Is 1.27; 4.4; 33.5), proteção contra os inimigos (Is 33.20). Além disso, o retorno de Yahweh à Sião resultará na volta dos exilados com júbilo e cântico (Is 35.10; 51.11). Consequentemente, não haverá mais choro (Is 30.19), toda a terra será frutífera como no Éden (Is 51.3). 

Tal restauração não se restringirá aos limites de Israel, mas se estenderá a todas as nações estrangeiras que virão e adorarão em Sião (Is 2.3). Neste contexto jubiloso, conforme afirma Harris, “a maior diferença é que naquele dia o próprio Deus reinará ali [Em Sião]” (HARRIS, 1998, p. 1283). 

No Novo Testamento, o reinado messiânico é atribuído a Jesus. De acordo com o evangelista Marcos, o evangelho era o cumprimento das profecias feitas sobre o reino de Deus (Cf. Mc 1.15). Além disso, Sião é tomado como símbolo do governo do Messias. Isto é verificável quando da citação de Zc 9.9 feita por Mateus através da qual ele reconhece ser tanto Cristo o rei, quanto Sião sendo o centro de seu governo (Cf. Mt 21.5). 

O sentido de Sião no NT é elucidado em Ap 14.1-5. No Apocalipse, Sião é, simbolicamente, reconhecido como o lugar da habitação do Cordeiro e de seu reinado. [12] 

Consequentemente, isso simboliza segurança e estabilidade do povo. Obviamente, este é o motivo pelo qual o povo canta ao seu rei a despeito da perseguição executada pelos oponentes do evangelho (Cf. 14. 1-5) (KISTEMAKER, 2004, p. 508). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Isaías 12.1-6 trata-se de um cântico de júbilo resultante dos atos salvíficos de Yahweh. Nessa seção, pode-se verificar que a salvação executada sobre os remanescentes está concatenada com o mediador, o pacto e o reino. Estes três elementos, chamados neste trabalho de princípio, constituem o cordão dourado (GRONINGEN, 2002, p. 190). 

De acordo com o que foi visto, o princípio do mediador em Isaías 12.1-6 é visualizado considerando três agentes. Sendo o primeiro, o próprio profeta, o segundo, o messias descrito em Is 11 e o terceiro, o próprio povo que é conclamado a proclamar os atos de Yahweh dentre os povos. O princípio do pacto, por sua vez, é visualizado em Isaías pelo fato de que o cântico é produto da fidelidade de Deus à sua aliança que se expressou por meio da salvação do cativeiro. 

Finalmente, o princípio do reino pode ser percebido na referência feita ao renovo que governaria os remanescentes e a Sião que se constitui no centro das atividades reais de Yahweh. Em todos estes casos, conforme foi verificado, tanto o mediador, quanto, o pacto e reino têm seu correspondente máximo no Novo Testamento; a saber, Jesus Cristo.

Enfim, Isaías 12.1-6, como toda a Bíblia estão ligados pelo cordão dourado. Como este trabalho se trata apenas de uma visão panorâmica sobre a presença dos elementos que constituem o cordão dourado, fica a sugestão para que em próximas pesquisas tais princípios possam ser ainda mais elucidados através de uma análise mais exaustiva do texto. Devem-se considerar, principalmente, os aspectos da poesia hebraica que carrega sobre si fortes elementos teológicos que certamente lançarão ainda mais bases sobre tudo aquilo que foi discutido até aqui. 

NOTAS
[1] Entende-se aqui, que mediadores da aliança são aqueles que verdadeiramente foram comissionados por Deus.
[2] Cf. Gn 9. 26-27; 12.1-3; 17.6; 2 Sm 7.16
[3] A obra de Cristo objetivou confirmar a fidelidade de Deus ao pacto da promessa feita a Abraão (Gn 12.1-3; 15.1), Isaque (Gn 26.1s), a Jacó (Gn 28.13-15). Além disso, tais promessas se estendem aos gentios (Cf. Gn 12.3; Is 45.22; 52.10) (HENDRIKSEN, 2001, p. 627). “Gentios e judeus, [...] unidos a Cristo pela fé tornam-se semente de Abraão por meio dele (Gl 3.26-29)” (PACKER, 1999, p. 85).
[4] Possivelmente, isso se dá pelo caráter corretivo de Paulo ao escrever para a igreja de Corinto. Seus leitores deturparam o sentido deste sacramento, transformando tal ritual em encontros de comilança.
[5] Além destes princípios, Groningen demonstra que Yahweh é apresentado, igualmente e em primeiro lugar, como mediador da aliança. (Cf. GRONINGEN, 2006 p. 179).
[6] Groningen aponta para o fato de que a relação entre YAHWEH e seu povo é construída e vivenciada nos moldes de um casamento. (Cf. GRONINGEN, 2006, pp. 182, 183).
[7] Conforme demonstra Cássio Murilo Dias da Silva, ao fazer isto, o autor usa um recurso retórico comum nos escritos poéticos chamado de “alusão” (Cf. SILVA, 2009, p. 311).
[8] Quanto à construção “sua misericórdia”, Schokel elucida a questão relacionada com a fidelidade à aliança tecendo o seguinte comentário: “Também pode-se traduzir “porque sua lealdade é perdurável, referindo hsd ao contexto da aliança. Na restauração anunciada por Jr 33.11 cita-se o versículo com uma variante, aplicando-o à repatriação ” (SCHOKEL, 1998, p. 1415).
[09] A repetição do termo “salvação” enquadra-se no recurso retórico denominado “palavra chave” (Cf. SILVA, 2009, p. 311). Isto evidencia a ênfase dada à tão grande salvação operada por Yahweh.
[10] O primeiro pacto, segundo a Confissão, é o pacto de obras feito com Adão. (Cf. VII, II).
[11] Em 11.1,10, o profeta prediz que ele será de origem davídica. Em 11.2,3, Isaías fala de seus atributos divinos; em 11. 3-5, de suas virtudes. Em 11. 6-10, o profeta anuncia que seu reinado se estenderá por todo o cosmos; sobre todas as nações. Finalmente, ele prediz que o rei dominará sobre os exilados em 11. 11-16 (GRONINGEN, 1995, p. 507).
[12] Segundo Kistemaker, este é o mesmo sentido expresso no Salmo 2 no qual o poeta se refere à Sião (Cf. KISTEMAKER, 2004, p. 508).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. São Paulo, Cultura Cristã, 2003. BALLARINI, Teodorico. Introdução à Bíblia – Vol. 3. Petrópolis, Vozes, 1974.
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GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação. O Reino, a Aliança e o Mediador. Volume I. São Paulo, Cultura Cristã, 2002.
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MEISTER, Mauro Fernando. Teologia Bíblica. São Paulo, CPAJ, 2013.
PACKER, J. I. Teologia Concisa. Síntese dos Fundamentos Históricos da Fé Cristã. São Paulo, Cultura Cristã, 1999.
RIDDERBOS, J. Introdução e comentário – Isaías. São Paulo, Vida Nova, 1995.
SCHOKEL, Luiz Antônio Alonso & CARNITI, Cecília. Salmo II: salmos 73-150. São Paulo, Paulus, 1998.
_______________, Profetas I – Isaías e Jeremias. São Paulo, Paulus, 2004.
SILVA, C. M. D. et alii Metodologia de Exegese Bíblica. São Paulo, Paulinas, 2009.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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