Dentro da igreja e fora de Cristo


Apocalipse 3.14-22

Há alguns dias atrás li em uma rede social a seguinte declaração: "Você pode ter sido criado na Igreja, pode ter sido batizado na Igreja, pode ter servido na Igreja, pode ser que tenha casado na Igreja, morrido na Igreja e ainda assim, acordar no inferno caso você esteja meramente na Igreja e não em Cristo".

Tal declaração me faz pensar em várias coisas, dentre elas a recorrente crítica que os cristãos fazem à sociedade por não compreender, por exemplo, o verdadeiro significado do natal. Mas o que talvez alguns não saibam é que isso ocorre também dentro das igrejas. Isso porque muitos podem estar nas igrejas, sem, contudo estar em Cristo.

Era exatamente esse o problema da igreja de Laodicéia. Pessoas que estavam na igreja, contudo, estavam longe de Cristo.

Laodicéia era uma cidade rica e membros daquela igreja também eram abastados. Por conta disso, achavam-se autosuficientes. Pensavam também que eram bem equipados espiritualmente. As obras realizadas por eles caminhava na contramão do que ensinava o evangelho. Por conta destas coisas, Cristo vai até eles com severas críticas. Nessas críticas fica claro o que Jesus quer dizer com estar na igreja, porém longe Dele.

Vejamos:

1. Obras que não refletem aquilo que foi aprendido (vv.15,16). 
“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca.” 

Possivelmente, aqueles crentes eram a segunda geração de cristãos. No entanto, diferentemente da geração anterior, eram indiferentes com aquilo que haviam aprendido. Ainda que possuíssem as Escrituras, eram apáticos, indiferentes e despreocupados com as coisas do Senhor. Não é a toa que Cristo tenha dito: “Conheço as tuas obras”. Isso quer dizer que não havia nada de bom que tenham feito. 

Cristo complementa a situação comparando-os à água morna. De Hierápolis, chegava à Laodicéia, águas com propriedades medicinais. No entanto, quando ali chegava ela já não estava quente, mas sim, morna. Essa água era rica em carbonato de cálcio e quando bebida morna produzia vômito. Cristo faz essa ilustração considerando a situação daquelas pessoas. Era preferível que elas não conhecessem.

O problema é que elas conheciam e agiam como se não conhecessem. Eram crentes nominais, mas agiam como mundanos. Não demonstravam interesse em serem testemunhas de Jesus, em viver uma vida de serviço para o Senhor, nem mesmo em pregar o evangelho. Talvez não seja esta a situação de muitos? Estão na igreja, conhecem as Escrituras, mas agem completamente como se essas coisas não fizessem diferença. Vivem de maneira perversa, não se engajam na obra. 

Cuidado: Ações como estas podem revelar que apesar de estar na igreja, não se está em Cristo. 

2. Confiança em si mesmo (vv. 17);
“Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” 

Essa riqueza diz respeito à falsa sensação de que eles eram suficientes espiritualmente. A cidade construiu grandes edifícios resistentes a terremotos. De modo geral, as pessoas orgulhavam-se desta habilidade. Mas também se orgulhavam da condição de ajudar cidades vizinhas que porventura viessem a sofrer com o mesmo problema.


Por conta dessas coisas, eles acreditavam não precisavam de Cristo para resolver seus problemas e dos outros. Jesus, portanto, condena tal atitude. Ao invés de serem soberbos e auto suficientes deveriam olhar para Cristo, aquele através de quem Deus supre todas as necessidades. 

É por isso que Paulo roga sobre a vida dos filipenses: “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades.” Ao invés de serem arrogantes, deveriam cultivar a humildade, sem a qual não é possível ver o reino dos céus. “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3).

Tal conduta condenada por Cristo não é semelhante ao pensamento de muitos que confiam em si mesmos para fazer o bem? Que se orgulham das obras realizadas? Que aquilo que fazem visa a sua própria glória e não a glória de Deus? Que não entendem que o êxito do Cristão advém da graça de Deus.

Cuidado: A arrogância pode revelar que apesar de estar na igreja, não está em Cristo que foi o grande exemplo de humildade.

Os conselhos para sair desta situação:

Após denunciar esses pecados, Jesus dá algumas instruções para que essa situação seja alterada: São elas:

1. Vá até Cristo como um mendigo (v.18) “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres.” Apesar do status, eles eram pobres e precisavam ir até Cristo em quem há verdadeira riqueza. É exatamente desta maneira que devemos nos achegar a Cristo. Sabedores que somos miseráveis em todos os aspectos.

2. Tenha seu pecado coberto (v.18)
“Aconselho-te que de mim compres vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez.”

Laodicéia era conhecida como polo da indústria têxtil. Cristo usa este contexto para ensiná-los que seus atos eram vergonhosos tais como uma pessoa nua. Assim como uma pessoa precisa de roupas, o único modo do homem cobrir seu pecado é através de Cristo aquele que pode remover o pecado e cobrir o homem com o manto da justiça.

3. Enxergue aquilo que você é (v.18)
Outro item para ser comprado no v. 18 é o colírio. Colírio para que vejam – A medicina naquela localidade era avançada. Com um unguento feito da pedra frígia, doenças dos olhos podiam ser curadas. O colírio fornecido por Cristo era mais eficiente no sentido de fazer com que os olhos espirituais fossem curados da cegueira. Assim, poderia ver os seus próprios pecados.

4. Arrependa-se (v.19)
“Sê, pois, zeloso e arrepende-te.”
A instrução constitui-se em atos para mudar a situação.

5. Tenha Cristo como centro de sua religião (v.20).
“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.”

O sentido deste v. é explicado à luz dos vv. anteriores. Ou seja, diz respeito a uma igreja que apesar de confessar a Jesus, viva como um ímpio. Exerciam sua religião sem prestar uma verdadeira adoração. Apenas a real submissão a Cristo pode demonstrar que Ele verdadeiramente está em seu meio.

A recompensa
Compartilharão do trono de Cristo (v.21). Que equivale a estar eternamente com Deus tal como é hoje em relação a Cristo (Hb 1.3).

Conclusão
Estamos na igreja e também em Cristo? Convencidos pelo Espírito do Senhor, vejamos se nossas obras refletem aquilo que foi aprendido (vv.15,16) e reflitamos se temos crido em Deus ao invés de alimentar confiança em nós mesmos. Dependendo das respostas, teremos que seguir os conselhos dados por Jesus nesse texto.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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