A bondade de Deus revelada no relato da queda



Gênesis 3. 1-24
Quando Moisés escreveu o livro de Gênesis, o povo estava ainda no deserto. A vida dos hebreus não havia sido fácil. Enfrentaram a escravidão do Egito, e, agora, no deserto, a vida também era penosa. Diante disso, a pergunta que surgia nas mentes era: Se Deus é tão bom, porque sofremos tanto? 

Para responder a essa pergunta, Moisés narra a queda com o objetivo de mostrar que o pecado é a razão para o sofrimento de toda humanidade, inclusive, do próprio povo de Deus.

O cenário descrito por Moisés é um ambiente de engano, traição, de culpa e medo. Deus, antes, havia ordenado que do fruto da árvore do conhecimento não fosse comido. Adão e Eva foram enganados pela serpente. 

Com isso, traíram ao seu Criador. Logo após a traição, vieram os sentimentos decorrentes do pecado; a culpa e o medo. Mas, mesmo nesse quadro caótico, é possível ver algumas das qualidades de Deus que o revelam como um Senhor bom. Que qualidades são essas? E como podemos vê-las num texto tão triste? 

Vejamos: 

1 - ONISCIÊNCIA
Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? (Gn 3.8,9).

Antes de tudo, é preciso entender o que significa onisciência. Onisciência é a capacidade de Deus de conhecimento absoluto sobre tudo o que está encoberto aos olhos humanos tanto no tempo quanto no espaço.

“Adão, ao tentar esconder, não afetou a habilidade de Deus para saber o que ele tinha feito”.[1] A pergunta feita pelo Senhor “onde estás?” não era o desconhecimento de Deus a respeito do que Adão e Eva fizeram ou de onde estavam. 

Antes, com essa pergunta, o Senhor deu a eles a oportunidade de confessarem o pecado e a culpa. Adão não só não confessou como também colocou a culpa em Eva. Isso era a evidência de sua culpa e de seu pecado - Gn 3.12 (GRONINGEN, 2006, p. 30). Portanto, Deus contemplou tudo o que se passou. 

A partir disso, surge uma pergunta: De que maneira a bondade de Deus se revela em Sua onisciência? A resposta é simples. Segundo o que já vimos, Deus conhece todas as coisas, logo, certamente, Ele foi testemunha do pecado de Adão. 

E quando Ele viu isso, poderia ter punido Adão e Eva com a morte de acordo com aquilo que Ele já havia dito: “Da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2. 17). 

 As condições estavam claras – o dia em que comessem daquele fruto – morreriam imediatamente. Mas, Deus, mesmo contemplando a traição de Adão, não o puniu com a morte, antes, foi até eles para dialogar. 

É curioso que essa bondade revelada na qualidade de Deus de conhecer todas as coisas é também vista em Jesus. Cristo anunciou a Pedro que este o negaria três vezes antes que o galo cantasse. No entanto, apesar da traição de Pedro, Jesus, Ele, ainda assim, não desistiu de Pedro e deu prosseguimento ao seu plano de tornar aquele pescador num grande pregador do evangelho (Mt 26.34,74-75; Jo 21.17).

Isso nos ensina algumas lições:

1ª. Deus em sua onisciência expressa sua bondade sobre todos os homens. Muitos têm cometido uma série de delitos que às vezes estão fora do alcance dos olhos dos homens. Adultérios, subornos, desvios de verbas, sonegações e outros delitos são praticados às escondidas. Contudo, sabemos que nenhum desses atos escapa ao olhar de Deus. Mesmo Deus vendo a maldade do homem e contemplando todas essas injustiças, Ele ainda assim não pune imediatamente. E isso é sua bondade. Um dos motivos disso é porque alguns que procedem dessa forma hoje se arrependerão e se curvarão amanhã diante de Cristo.

2ª. Deus em sua onisciência expressa sua bondade sobre sua igreja. O cristão não está livre de cometer pecados longe dos olhos dos homens. Porém, conforme já sabemos, Deus conhece todas as coisas. Mesmo assim, não são consumidos porque Deus, em seu amor, enviou Cristo para que pagasse um alto preço pelos nossos pecados, inclusive por aqueles que são cometidos em oculto. Mas isso, não motivo para vivermos no pecado.



2 - MISERICÓRDIA
“Ele (Adão) respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi” (Gn 3.10).

A misericórdia pode ser assim definida: “É a bondade de Deus para com os angustiados e aflitos”. [2] É esse cenário que vemos aqui. Por um lado, temos Adão angustiado e aflito por conta do pecado. Essa angústia e aflição são verbalizadas da seguinte maneira: “tive medo, e me escondi”. 

Por outro lado, a misericórdia de Deus é demonstrada, em primeiro lugar, por aquilo que Ele não fez, ou seja, não matou o casal imediatamente. Em segundo lugar por aquilo que Ele fez; isto é confortando o coração do casal não os matando imediatamente. Além de não mata-los, Deus lhes prometeu um descendente que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15) e deu a eles vestuário (Gn 3.21). 

A misericórdia de Deus manifesta-se tanto aqui como no restante da Escritura. O livro dos Salmos, por exemplo, nos diz: “Benigno e misericordioso é o SENHOR, tardio em irar-se e de grande clemência” (Sl 145.8). O mesmo ocorre em relação a Cristo. Em várias passagens podemos ler o caráter de seu ministério em demonstrar misericórdia para com os miseráveis. 

Em Lc 5.31,32 Jesus disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento. Jesus em Lc 4.18 se utilizou da profecia de Isaías para falar a respeito de sua missão. Sua missão era evangelizar os pobres, proclamar libertação aos cativos, dar visão aos cegos, libertar os oprimidos (Is 61.1). Em Jo 10.10 nós lemos: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

Tais testemunhos acerca da miséria do homem, da misericórdia de Deus na queda e da misericórdia de Jesus nos faz refletir sobre três grandes verdades.

1ª. A Bíblia nos define como miseráveis. Assim como Adão, o homem está naturalmente desviado do propósito de Deus. Por isso, o salmista declara: “Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.” (Sl 14.2-3).

2ª. Somente Deus pode tirar o homem desse estado de miséria. É por esta razão que o profeta Joel faz o seguinte anúncio: “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Joel 2.32)

3ª. O meio de Deus para retirar o homem dessa miséria é Cristo. Jesus ensina: “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40). 

3 - GRAÇA
E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida (Gn 3.16,17). 

Todos conhecem a definição de graça. Trata-se de um favor imerecido. E a graça igualmente é revelada no relato da queda. Contudo, diante das penalidades apresentada por Deus, como é possível vislumbrar a Sua graça nesse relato? É necessário que tenhamos em vista novamente o que Deus disse em Gn 2.17 – “No dia em que dela (da árvore do conhecimento do bem e do mal) comeres, certamente morrerás” (Gn 2. 17).

Deus mostrou a sua graça não castigando Adão e Eva imediatamente com a morte. A punição veio reduzida através das dores no parto, da maldição da terra, do trabalho penoso. Antes da desobediência, Adão e Eva não sabiam o que era graça porque não havia pecado ou culpa. Agora, no entanto, com a entrada do pecado, o Senhor expressa sua graça não punindo completamente Adão e Eva.[3] 

Da mesma forma Jesus expressou sua graça quando uma mulher adúltera estava para ser apedrejada. Naquela ocasião, Cristo confrontou aqueles homens com o desafio de que quem não tivesse pecado que atirasse a primeira pedra. 

Ninguém atirou, logo não houve condenação. E a ela Jesus lhe disse: “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8.11). A lei previa que o adultério deveria ser punido com a morte (Lv 20.10; Dt 22.22,23). Todavia, Jesus, agiu graciosamente com aquela mulher não lhe dando a punição que ela merecia segundo a lei, mas agiu com graça. Deu-lhe a oportunidade de vida ainda que não merecesse.

Com isso aprendemos outras lições importantes:

1ª. Não merecemos outra coisa senão a punição de Deus. Deus não seria mal se ele resolvesse nos matar por causa de nossos pecados. Isso seria unicamente expressão de sua justiça. 

2ª Sua graça é maior que nossa capacidade de pecar. Em Rm 5.20 nós lemos: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Mas isso, não quer dizer que devamos pecar à vontade para desfrutar da graça de Deus.

Conclusão
O relato da queda não serve apenas para narrar um evento triste. Antes, ele serve para informar ao homem a origem de todo o sofrimento, mas também tem como objetivo mostrar que mesmo naquela situação, o Senhor se revela como um Deus bom. 

E sua bondade pode ser vislumbrada em sua onisciência, em sua misericórdia e em sua graça. Que consigamos visualizar isso, mas que também entendamos as implicações de tudo isso para o homem. 

Notas
[1] GRONINGEN, Gerard Van. O progresso da Revelação no Antigo Testamento. São Paulo, Cultura Cristã, 2006, p. 30.
[2] GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática. Atual e exaustiva. São Paulo, Vida Nova, 2012. p. 146.
[3] GRONINGEN, 2004, p. 30.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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