O que fazer no momento do desânimo?


Ageu 2. 1-9

Ageu, contemporâneo de Esdras, foi um dos profetas que atuou após o exílio babilônico. Cerca de 42 mil pessoas retornaram da Babilônia. Uma das obrigações das 42 mil pessoas que retornaram era reconstruir o templo que havia sido destruído durante a invasão dos babilônicos.

Até começaram, mas foram tomadas de desânimo por causa da desolação do antigo templo. Havia a necessidade de retirar os escombros, de limpar o local, de verificar quais paredes do antigo templo poderiam ser reaproveitadas, de providenciar material para a obra. Tudo isso, sem auxílio de máquinas. O resultado – desanimaram. 


Por isso, ao invés de reconstruir o templo, o povo passou a se dedicar aos seus interesses pessoais como plantar, colher e construir suas casas. O povo foi advertido por isso com secas, más colheitas e ordenado para retomar a reconstrução. O povo, então atendeu à ordem de Deus (Ag 1.1-11). 

Um mês e meio após o reinício da construção, Deus volta a falar. A causa desta nova mensagem era porque as pessoas que trabalhavam na reconstrução do templo estavam chocadas, tristes e desanimadas. Mas qual era o motivo desse conjunto de sentimentos? Primeiro, como já foi dito, era a dificuldade da obra. Segundo, porque o templo que seria reerguido não se comparava à glória do antigo templo erguido por Salomão. 

Nessa nova mensagem, podemos ler instruções do Senhor para momentos de desânimo. Mas que instruções são essas?

1. O presente não é como o passado (v.3)
“Quem dentre vós, que tenha sobrevivido, contemplou esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é ela como nada aos vossos olhos?”

Conforme mostra o v. 2, é uma mensagem dirigida a Zorobabel, o governador, a Josué, o sumo sacerdote, mas também a todo povo. Todos estavam imbuídos da reconstrução do templo. Porém todos estavam desanimados. 

Naquele contexto, os mais velhos se lembravam do templo anterior. Possivelmente, devem ter falado para os mais jovens do seu esplendor. Aquela desilusão os levou ao pessimismo quanto ao presente e quanto ao futuro. Eles não tinham recursos para pagar profissionais como fez Salomão. O novo templo não seria como o primeiro. 

As perguntas do v. 3 de Deus são retóricas. Por trás de todos os questionamentos há uma afirmação: O presente não é como o passado. Se assim não fosse, ele não seria chamado de presente e sim de passado. 

A princípio, isso pode parecer desestimulante, mas o objetivo de Deus é deixar claro que as pessoas não poderiam estar aprisionadas pelo saudosismo. Deus objetiva leva-los a olhar para o presente e conduzi-los à conclusão do trabalho que tinham pra fazer. Ainda que os resultados não correspondessem às suas expectativas. 

A ordem era para reconstruir o templo e não deixa-lo como nos tempos de Salomão. Deus queria com isso, resgatar o culto, e não a suntuosidade do antigo templo. 

É verdade que nosso passado nos ensina como devemos nos comportar no presente. Porém, uma coisa é aprender com o passado e outra, é querermos que nosso presente seja como o nosso passado. 

Devemos nos concentrar no presente, e servirmos a Deus e ao próximo com aquilo que temos em mãos hoje. Devemos desfrutar daquilo que temos hoje e não remoermos com aquilo que tínhamos no passado. Devemos regozijar no dia de hoje, pois ele existe por causa da bondade de Deus. Por isso o salmista declara: Este é o dia que o SENHOR fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele. (Sl 118.24).

Há provérbio chinês que diz: O passado é história, o futuro é mistério, e hoje é uma dádiva. Por isso é chamado de presente!

2. Trabalhe apesar do desânimo (vv. 4-5).
Ora, pois, sê forte, Zorobabel, diz o SENHOR, e sê forte, Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, e tu, todo o povo da terra, sê forte, diz o SENHOR, e trabalhai, porque eu sou convosco, diz o SENHOR dos Exércitos; 5 - segundo a palavra da aliança que fiz convosco, quando saístes do Egito, o meu Espírito habita no meio de vós; não temais.

Com estas palavras, Deus, se dirige a todas as classes, governador, sacerdote e todo o povo animando-os para a continuidade do trabalho. Para todas as classes Deus diz: “Sê forte” no v. 4. No v. 5 Deus exibe os motivos pelos quais o povo deveria ter suas forças recobradas. 

Primeiro, o Senhor relembra-os sobre a aliança feita com o povo quando este ainda estava no Egito. Esta aliança dentre outros elementos, era caracterizada pela presença de Deus no meio de seu povo. 

Este princípio aponta para o segundo motivo pelo qual o povo deveria ter suas forças recobradas, isto é o meu Espírito habita no meio de vós. Portanto, a aliança feita por Deus e o seu Espírito comunicavam a ideia de presença no meio deles.

Por isso, eles não deveriam temer. Deveriam sim, trabalhar intensamente, apesar do desânimo e apesar das circunstâncias. A presença do Senhor era a garantida da provisão para concluir a obra. 

Hoje, isso não é diferente, pois da mesma forma, Deus fez uma aliança conosco por meio de Cristo. Todos aqueles que creem em seu nome e o confessam como Senhor são habitação do Espírito Santo. Logo, a presença de Deus em nós por meio da aliança feita em Cristo e por meio de seu Espírito representa a garantia de que seremos supridos no nosso trabalho. 

O trabalho, à semelhança daquela época, será sempre árduo, espinhoso e muitas lágrimas brotarão dos olhos dos que se dispõem para trabalhar. As dificuldades poderão nos levar a querer interromper a missão. Mas o que deve ser lembrado são duas coisas: A primeira é que a garantia do êxito não reside no servo, mas na presença de Deus nele por meio de Cristo e do Espírito Santo. 

Segundo, exatamente porque o êxito está na provisão do Senhor, o trabalho confiado a nós deve ser executado apesar das aflições. No filme Tropa de Elite há uma frase dita pelos homens do Batalhão de Operações Especiais, o Bope. “Missão dada, é missão cumprida.” Lembremos daquilo que escreveu o apóstolo: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.” (1 Co 15.58).

3. Creia ainda que não tenha motivações visíveis (v.9)
A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos.

Este versículo é o clímax deste texto. Os versículos anteriores falam que o Senhor abalaria a criação, as nações (vv. 6,7). No v. 8, o Senhor, ao relembrá-los de que Ele era o dono do ouro e da prata, queria dizer que poderia conceder estes metais para a reconstrução do novo templo. Contudo, o abalo da natureza, das nações o valor do ouro e da prata apontavam para glória do segundo templo. Glória esta, que seria infinitamente maior que a glória do templo de Salomão. 

Mas a pergunta que poderia surgir é: Como um templo sem a suntuosidade do antigo poderia ser mais glorioso? Certamente, Deus não falava de templo construído por mãos, mas se referia a Jesus. Algo que já havia sido dito Ez 41.1-12.

No AT, o templo era o lugar onde glória de Deus se manifestava (II Cr 7.1).

No NT a manifestação da glória de Deus não ocorre em templo, mas em Jesus. Em João 1.14 nós lemos: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. 

O v. 9 também menciona que no templo, Deus dará paz. Isso também se aplica a Cristo, uma vez que por meio Dele o pecador pode tem comunhão com Deus livrando-se de sua condenação. Por isso Paulo declara: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 5.1). 

Os olhos daqueles sacerdotes não podiam contemplar glória alguma, mas deveriam crer naquilo que o seus olhos não podiam contemplar, porém era anunciado pelo Senhor.

De igual modo, este é o procedimento exigido por Deus em relação nós. Somos exortados a crer nas promessas de Deus ainda que as circunstâncias sejam desfavoráveis. Crer sem ver é o melhor define a fé. Por isso a Bíblia diz: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1).

Conclusão
O desânimo é um grande inimigo. E a Bíblia nos ajuda a enfrentá-lo. Segundo o que aprendemos, no desânimo devemos entender que o presente não é como o passado. Além disso, necessitamos trabalhar apesar do desânimo e finalmente, precisamos crer ainda que não tenha motivações visíveis. Que o Senhor nos dê sua graça para observarmos tais princípios.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2002 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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