Enxergando Cristo na pessoa de Daniel


Daniel 1.1-21

O livro de Daniel descreve que a atividade deste profeta ocorreu durante todo o período do exílio, ou seja, 70 anos. O tema chave deste livro é a soberania de Deus. Deus é o soberano governador das nações do mundo e o Senhor da história. Ela não é uma sucessão de fatos sem nexo, não é controlada pelos homens, antes Deus é aquele que a conduz conforme sua vontade. 


O objetivo do livro é declarar a soberania de Deus sobre a história. Por isso, Daniel conclama o povo de Deus de todas as gerações a crer Nele. 

A pessoa de Daniel ocupa importante lugar neste livro e na Bíblia. Autor deste livro, nasceu durante o governo do rei Josias, antes do exílio. Era nobre (1.3) e foi levado cativo por Nabucodonosor. Depois, foi conduzido até o palácio. Ali, permaneceu por quase 70 anos.

Sua vida muitas vezes serve de modelo de vida cristã. Mas, precisamos aprender a olhar para Daniel como um homem que apontou para Cristo. Nesta passagem em particular, podemos visualizar a correspondência entre Daniel e Jesus. Vejamos:

1. Fadado a uma missão (vv. 3,4)

“Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus.”

Note que Daniel e outros jovens não buscaram o palácio. Antes, eles foram enviados ao palácio. Eles deveriam receber uma educação especial que os capacitaria para exercer funções de magos e encantadores. Para isso deveriam conhecer a literatura dos caldeus, especialmente aqueles que tratavam da magia, astrologia e adivinhação. 

No entanto, Daniel e seus amigos não foram absorvidos por isso. Antes, mantiveram-se fiéis a Deus. Ele foi boca de Deus no palácio e ali anunciou a soberania de Deus sobre todos, profetizou sobre o reino invencível de Cristo, além de anunciar que Deus abate os soberbos. 

Pelo contexto e do histórico de todo o livro, podemos verificar que Daniel não foi para o palácio como fruto do acaso. Antes, sua ida àquele lugar estava de acordo com o plano de Deus de anuncia-Lo aos poderosos.

Tanto é que Daniel serviu a sete governadores (Nabucodonosor, Evil Merodaque, Neriglizar, Nabonido, Belsazar, Dario e Ciro). Em suma, Daniel estava predestinado a estar naquele local, a presenciar a ascensão e queda de grandes impérios, e principalmente, a anunciar a soberania de Deus. 

Certamente isso está relacionado com Jesus e sua obra. Assim como Daniel estava predestinado a profetizar no palácio, Cristo estava fadado a proclamar o reino. As mensagens de Daniel não tinham outra motivação a não ser chamar o povo à libertação por meio do arrependimento e da fé.

Da mesma forma, isso acontece de maneira mais plena na pessoa de Jesus. Em Lucas 4. 18 Jesus lê a profecia de Isaías que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos”.

Logo a seguir, Jesus conclui: “Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir”. (Lc 4. 21). 

Há duas implicações práticas do ensino de Cristo. A primeira para aqueles que creem - a vida eterna. Por isso Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (João 5.24). 

A segunda para aqueles que não creem - a condenação e morte eterna. Na ordem para evangelização Cristo disse: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado”. (Mc 16.16).

2. Caráter incorruptível (vv. 7-9).
“O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de Abede-Nego. Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. Ora, Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos.”

É possível verificar o caráter incorruptível de Daniel nestes versículos. Começando pela mudança de seu nome. No Antigo Oriente isso significava afirmação de domínio. “Daniel” significa em hebraico “Deus é meu juiz”.

Seu nome, no entanto é mudado para Beltessazar que significava “que Bel proteja sua vida”. Bel era um o outro nome de Madruque, a principal divindade babilônica. Isso sugere que Daniel deveria submeter-se a tal divindade. 

Contudo, Daniel manteve-se fiel adorando e invocando somente ao Senhor. Isso refletiu em seu caráter. Seus opositores tentaram achar nele alguma falha, no entanto, não conseguiram. Em Dn 6.4 nós lemos: “Então, os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas não puderam acha-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa”. 

Certamente, isso tem correspondência com Jesus. Pedro escreve que Jesus “não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca”. (1 Pe 2.22). Por causa de sua fidelidade ao Senhor, Daniel foi para cova dos leões. Jesus, por conta de sua obediência foi para a cruz. Tanto Daniel quanto Jesus não foram vencidos. Daniel foi poupado na cova. Cristo ressuscitou ao terceiro dia. 

Quanto à alimentação, Daniel estava resoluto em não contaminar-se com as iguarias do rei. Não é muito claro para nós os motivos disso. Talvez aqueles alimentos eram preparados com carne de animais considerados impuros pela lei. Ou aqueles animais poderiam ter sido oferecidos a algum ídolo.

De qualquer forma, a ingestão daqueles alimentos constituía em desobediência ao Senhor. Daniel estava disposto a ser fiel a Deus por isso pediu legumes. Ao final de dez dias, estava mais robusto que outros jovens que comiam as iguarias do rei.

Da mesma forma, isso tem correspondência com Cristo. Jesus ao ser tentado por Satanás (Mt 4.1-11) , não deixou-se ser contaminado com as artimanhas do Diabo. Antes, resistiu a todas elas. Assim como Daniel pareceu mais robusto, Cristo foi honrado e servido por anjos ao resistir às tentações do Diabo (Mt 4.11). 

Diante disso, há pelo menos duas serias implicações:

a) O caráter incorruptível de Cristo prova sua divindade. Logo, aquele que não o reconhece como Deus, rejeita não só a Ele como o próprio Deus. Em 1 João 2.23 nós lemos: “Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai”.

b) Cristo nos oferece subsídios para enfrentarmos a tentação porque ele mesmo foi tentado. Em Hebreus 2.18 está escrito: “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados”.

3. Sabedoria distintiva (vv. 17)
“Ora, a estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos.”

O Senhor concedeu aos jovens grande habilidade intelectual. Contudo, Daniel se destacou dentre eles visto que Deus concedeu a ele o talento de interpretar sonhos e visões. O objetivo disso era para que o SENHOR fosse reconhecido como o único Deus pelos babilônicos através do ministério de Daniel. Este ministério foi amplo.

Daniel interpretou o sonho de Nabucodonosor (Dn 2), interpretou uma escritura que surgiu na parede durante uma festa dada pelo rei Belsazar (Dn 5). O próprio Daniel teve sonhos e visões (Dn 7,8,10). Em todos estes casos, o objetivo era proclamar a soberania de Deus, a vitória do reino de Deus e a queda dos soberbos. 

A sabedoria de Daniel que o distinguia dos demais também aponta para Cristo. Desde pequeno Jesus já chamava a atenção pela sua sabedoria. Quando esteve entre os doutores no templo, Lucas escreveu: “E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas”. (Lc 2.47).

Já adulto, sua sabedoria dava autoridade ao seu ensino diferindo dos escribas. Em Mt 7.28,29 nós lemos: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” 

Além disso, Jesus conhecia o interior dos homens. Certa vez, ele curou um paralítico e disse que os pecados deste homem estavam perdoados. Alguns escribas pensavam em seu coração: Quem pode perdoar pecados senão Deus?

Então Jesus disse: “Por que vocês estão remoendo essas coisas em seu coração?” (Mc 2.9). Jesus possuía conhecimento do futuro. Em Mc 10.39, ele anuncia que Tiago, irmão de João morreria e At 12.1 narra o cumprimento desta profecia. 

Estes são alguns dos exemplos a respeito da sabedoria de Cristo que o distinguia dos demais. Sua sabedoria é evidência de sua autoridade. Aliás, a própria sabedoria de Deus habita em Cristo. Por isso Paulo escreveu: “É, porém, por iniciativa dele que vocês estão em Cristo Jesus, o qual se tornou em sabedoria de Deus.” (1 Co 1.30). 

Portanto, sua palavra deve ser crida, seus ensinamentos devem ser obedecidos, suas advertências devem ser observadas, seu juízo deve ser temido e seu nome deve ser exaltado. Sua palavra é a própria palavra de Deus de tal modo que a rejeição a Ele e àquilo que Ele ensina, constitui-se na rejeição do Senhor. 

Conclusão
Cristo é o centro da Bíblia. Ele está presente em toda a Escritura. Um exemplo disso é que podemos ver Cristo através de Daniel. Em Daniel vimos qualidades que aparecem perfeitamente em Cristo. Jesus estava fadado a uma missão, seu caráter é incorruptível e sua sabedoria é distintiva. Que saibamos disso, entendamos as implicações de tais coisas para nossa vida e proclamemos tais princípios aos que não conhecem a Cristo. 

------------------------------------
Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2002 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

Tecnologia do Blogger.