Idolatria

Omissão
Um menino guiava um cego, puxando-o com uma varinha. A prefeitura tinha aberto uma valeta na rua, sem as devidas providências de segurança. O menino passou a valeta e não avisou o cego, que caiu na valeta. O cego foi instruído a acionar a prefeitura para pagar as despesas com o hospital. Um ponto importante na defesa da prefeitura foi fato de o cego ter um guia responsável pela sua segurança e que se omitiu, não avisando o cego. De tudo isso concluímos que não fazer o bem é tão, ou mais grave do que praticar o mal.

(Extraído do livro “Pense Comigo – Meditações Evangélicas”, 1ª Edição – Rev. Samuel Barbosa)

Perdidos em São Paulo
Em 1946 fui a São Paulo pela primeira vez. O São Paulo ia disputar uma final do campeonato paulista com o Corinthians. Nunca tinha ido a São Paulo, não conhecia nada, mas como eu ia com um colega de trabalho que tinha uma irmã que morava no Brás em São Paulo, eu me senti mais animado. Tomamos um trem que passava em Conchas às duas horas da manhã. Chegamos a São Paulo às sete horas. 

Quando desembarcamos, o Antoninho me disse - eu não sei ir na casa de minha irmã sozinho. Mas você sabe ler, então será mais fácil saber que bonde a gente tem que pegar. Só agora que ele disse que era analfabeto! Se dissesse antes da gente sair de casa talvez a gente nem fosse assistir ao jogo. Agora sim. Estamos bem aviados, que é como se dizia antigamente quando a gente estava "no mato sem cachorro". Ele não sabe ler e eu não conheço nada de São Paulo, como vai ser a nossa vida? 

Com muito custo ele lembrou do nome do bonde - Penha-Lapa, nome da rua de que não me lembro agora. Tomamos o bonde ali mesmo perto da estação Júlio Prestes e com o auxílio do motorneiro, descemos na esquina da bendita rua, uma travessa da rua Bresser. No outro dia saímos cedo e fomos ao Pacaembu, agora já ciceroneados por um sobrinho do Antoninho. Entramos no Pacaembu às nove horas e saímos, ou melhor conseguimos sair às oito da noite, cansados, famintos, tensos, mas alegres - 2 x 1 pro São Paulo - campeão paulista de 1946.

Mas quando estávamos na estação, chegando a São Paulo e quando o Antoninho me disse que não sabia ir sozinho à casa da irmã, quando vi que ele estava confiando em mim, que sabia ler, me vieram à mente as palavras de Jesus: "Deixai-os, são cegos guiando outros cegos, ora se um cego guiar outro cego ambos cairão no barranco".

(Extraído do livro “Pense Comigo – Meditações Evangélicas”, 1ª Edição – Rev. Samuel Barbosa)

Engano
Diz-se que Lampião, o cangaceiro, quando ia matar um desafeto, às vezes, passava por uma igreja e pagava ao padre uma missa em intenção da alma da pessoa que ia matar. Quando o padre estranhava - mas ele não morreu - Lampião respondia: - mas vai morrer. E Lampião pensava que estava certo, pois até religioso ele era. E seguiu errado até o fim de seu caminho! Por isso Jesus adverte: "entrai pela porta estreita porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela e porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida e poucos há que o encontram.

(Extraído do livro “Pense Comigo – Meditações Evangélicas”, 1ª Edição – Rev. Samuel Barbosa)

OVNI
Depois de um dia cansativo, exaustivo, mesmo debaixo de um sol escaldante, com aquele cansaço gostoso de após banho de mar voltamos para o hotel.

Após o jantar o passeio faz bem. A noite estava quente e o carro corria velozmente, silencioso entre a s árvores que marginavam a estrada.

De repente o motor começou a falhar até que parou de todo.

Aí então é que notei que não estava só. Ao lado da estrada, num descampado, estava a "coisa". Seria um disco voador? Só poderia ser, pois está na moda agora! Eles aparecem para qualquer um, bem que poderiam aparecer para mim, que também sou qualquer um.

Desceram uns homúnculos, roupas coloridas, pele clara, meio luminosa, malares salientes. Sem que dissessem uma só palavra eu entendia tudo o que eles "diziam".

Convidaram-me para entrar naquela geringonça. Entrei. Um salão espaçoso, luxuosamente mobiliado, dava a impressão de estar num transatlântico de luxo. Sentei-me e perguntei, meio tímido:

- De onde vocês são e o que querem de nós, simples mortais?

- Nós viemos da imaginação de vocês, simples mortais terráqueos. Vocês inventaram tantas histórias a respeito de discos voadores, que a imaginação de vocês se materializou e eis-nos aqui mais reais do que vocês próprios!

- Então vocês não existem, vocês não são habitantes de Venus ou de algum outro planeta perdido por aí?

- Que nada. Tem um cara aí (eles já usam gíria humana) que escreveu um livro chamado "Eram os Deuses Astronautas". As pessoas se entusiamaram tanto pelo livro que acabaram aceitando verdadeiras fantasias como realidade, ao mesmo tempo que passaram a encarar a realidade como fantasia! Muita violência se tem feito até na exegese e tradução de textos bíblicos para ajeita-los à teoria dos discos-voadores. Alguém escreveu alhures que a palavra "nuvem" que aparece várias vezes no velho testamento e que se compõe de três consoantes, Nu-Vav-Mu teve trocado o primeiro som vocálico que seria "a" e não "u". Então essa mágica permitiu que a palavra nuvem se transformasse em navem. Vocês, humanos, não têm jeito mesmo!

- Mas vocês têm aparecido para tanta gente, inclusive gente circunspecta, gente séria! Se vocês não existem, como é que toda essa gente os tem visto e conversado com vocês?

- Mas essa "gente" a quem você se refere tem alguma prova de que nos viu? De que falou conosco? Tudo o que essa "gente" tem para garantia de suas afirmações é a própria palavra que, diga-se de passagem, hoje em dia, está valendo quase nada, concorda comigo?

Então pensei cá comigo: Vou exigir uma prova deste encontro e deste diálogo.

- Gostaria que vocês me dessem uma prova mais concreta deste nosso diálogo para que pudessem acreditarem mim, sem precisarem acreditar apenas em minhas palavras! É possível?

- Como não? Respondeu-me um deles. Apanhe esse objeto aí no chão ao lado.

Abaixei-me para pegar o tal objeto e aí caí com a cara no assoalho. Eu havia adormecido depois do jantar. Creio que o camarão não estava muito bom. É, o mundo está cheio de sonhadores! Eram os deuses astronautas? Pois sim! 

(Extraído do livro “Respingando – Crônicas e Memórias”, 1ª Edição – Rev. Samuel Barbosa)

Carnaval e folclore
Há tempos, num programa de televisão, um pastor convidado a responder sobre a existência de satanás, antes de responder à pergunta específica, disse gratuitamente que o carnaval nada tem de diabólico, mas é apenas uma festa folclórica. Eu disse gratuitamente porque ninguém lhe perguntou nada sobre o carnaval. Pode ser festa folclórica, mas não se pode negar que satanás se aproveita dela para fazer sua colheita. Se não é assim veja-se o que acontece nessa festa "folclórica". 

Mulheres nuas a pularem freneticamente nos salões sem a mínima demonstração de pudor. Promiscuidade livre nas ruas e nos salões, numa demonstração de decadência moral em todas as escalas sociais. Desde as mais vulgares gafieiras até os clubes mais sofisticados é a mesma coisa, o mesmo desrespeito pela vida, pela pessoa humana.

Razão tinha mesmo aquela criança que, entrevistada pelo repórter sobre o que achava do carnaval, disse que carnaval é uma festa com muito movimento e muita senvergonhice. Certa a menina!

(Extraído do livro “Respingando – Crônicas e Memórias”, 1ª Edição – Rev. Samuel Barbosa)

A festa tem que continuar?
Sabe-se, pela História da Igreja, que um dos entraves do progresso humano, perpetrados pelo catolicismo romano, é o que se faz com os "dias santos". Um jovem brincalhão e irreverente dizia que os católicos teriam apenas três ou quatro meses por ano de trabalho. "Por isso é uma religião boa. Não exige muito".

Nos dias santos mais célebres, vinham as festividades. Estes dias santos especiais eram o Dia de Santa Cruz, Santo Antonio, São João, São Pedro, São Roque, Nossa Senhora Aparecida, São Bom Jesus de Pirapora, Nossa Senhora da Conceição, Natal, Santos Reis Magos. Estes dias são início de uma lista interminável!

Os festejos do Divino eram proverbiais. Os "divineiros" - dizia o povo - saíam de bandeira em punho, de casa em casa, pedindo prendas. Um dito popular corria que "o divino era mau e que poderia castigar os que se lhe fechassem a porta". 

Certa ocasião, na festa de Santa Cruz, observamos o leilão explorador em que, exaltados pela competição, engalfinhavam-se entre si os fazendeiros, fomentados pela zombaria e torcida da massa humana; e, pelas altas doses de cachaça, adquiriam "prendas" insignificantes por peso de mil réis, moeda valiosa do tempo, em contraste com o "real" de hoje.

Numa dessas festas, presenciamos o drama de um pobre homem que teve a mão decepada por uma bomba de efeito retardado. Envolveram-lhe a mão ferida, ou apenas um toco de braço, com um pano ensopado de pinga. O fazendeiro gritou para acalmar os ânimos tocados de emoção: "Gente, dia de festa é dia de festa. Tudo é festa!" 

Rompeu a música e o baile continuou até amanhecer. O homem sinistrado amanheceu encostado à parede do salão, cruciado pela terrível dor. Era a orgia aberta, com jogatina, bebedeira e prostituição. 

(Extraído do livro “Os meus dias” – Rev. Lázaro Lopes de Arruda, 1997.)

Idolatria
Meu avô Francisco era muito religioso. Como disse, rezador de terços, era constantemente procurado para rezar nos bairros, e porque era catequista. E mais: ele, como a avó Ana, se dava ao uso de benzimentos. Benziam crianças que sofriam dor de dente, como também os adultos. 

Numa época de pouco, ou de nenhum, tratamento odontológico, estavam no seu tempo. Serviam como podiam. Também benziam as nuvens e "evitavam tempestades" com a invocação dos santos, em suas variadas especialidades. 

Meu avô, certa vez, benzeu um algodoal corroído de pragas de insetos. Era o famoso curuguerê, uma lagarta em evolução para borboleta ou mariposa. Nesta fase, ou na fase das larvas, o inseto é um devorador insaciável. A desova era feita na folha do algodão que, em pouco tempo, em milhares de ovos, aparecia com uma população imensa de bichinhos destruidores. 

Atingiam os algodoeiros em fase de floração e frutificação, reduzindo-os a frangalhos. Meu avô rodeava a área da plantação com os gestos usuais, a murmurar orações, excomungando a peste. Chegou o dia de benzer a lavoura de meu pai, e ele o fez inutilmente.

(Extraído do livro “Os meus dias” – Rev. Lázaro Lopes de Arruda, 1997.)

Indulgência conquistada
O Sr. Francisco fazia parte dos programas de festas ou das comemorações litúrgicas da Igreja. Durante a Semana Santa, convocava os filhos e os netos para rezar. Dizia que as rezas teriam tanto mais merecimento quanto mais sacrifício se fizesse. Os netos - eu e os meus primos - fazíamos competição: quantos terços poderíamos rezar de joelhos!? Dizia-se que, com os joelhos dobrados sobre grãos de milho, poderíamos ganhar muitos anos de indulgência. É claro que tentamos fazê-lo!

(Extraído do livro “Os meus dias” – Rev. Lázaro Lopes de Arruda, 1997.)

Procissões de antigamente
Nas procissões daquela semana, meu avô dramatizava a "via crucis", em que um enorme tronco, sob forma de cruz, pesava-lhe os ombros, aponto de escorrer sangue. Os circunstantes, que presenciavam a cena, chegavam a dizer que o bom velhinho teria tanto merecimento quanto Jesus Cristo, sem perceber a dimensão da horrível blasfêmia que cometiam. É que o drama desempenhado pelo ancião atingia o clímax, e as emoções em palavras, e até lágrimas, vinham à tona... 

(Extraído do livro “Os meus dias” – Rev. Lázaro Lopes de Arruda, 1997.)
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