O manual da adoração que toca os céus - Estudo Bíblico sobre Liturgia


Salmo 150

Liturgia é, sem sombra de dúvida, parte integrante da missão da Igreja de Cristo Jesus no mundo. A palavra "liturgia" é de origem grega, e significa, literalmente, "serviço para o povo".

Na Septuaginta (a tradução do Antigo Testamento hebraico para o grego, feita, mais ou menos 400 anos antes de Cristo), a palavra "liturgia" é usada apenas em sentido religioso. No Novo Testamento, a palavra aparece seis vezes.

Em toda a história do Cristianismo, a liturgia (juntamente com o ensino, a pregação, o serviço, o testemunho e o pastoreio) tem sido entendida pelos seguidores de Jesus, como sendo uma de suas tarefas indispensáveis. 

Este entendimento teológico da liturgia permite concluir que, sem liturgia, a Igreja se torna incompleta, como se lhe faltasse um membro essencial.

Pode-se dizer que a história da Igreja é, de alguma maneira, a história da liturgia. No limiar do terceiro milênio da era cristã, é importante pensar sobre como a Igreja realizará sua liturgia nos próximos anos.

Este estudo não tem as pretensões arrogantes de fazer um exercício de futurologia (isto é, prever que a liturgia será desta ou daquela maneira) ou de impor um modelo (ordenando que a liturgia seja deste ou daquele modo).

Antes, o que se pretende, é apontar algumas diretrizes, que não deverão ser cumpridas só por causa do terceiro milênio. As diretrizes e sugestões para reflexão aqui apresentadas, são para a Igreja em qualquer tempo, e não apenas no terceiro milênio.

1 - A IGREJA DEVE TER UMA LITURGIA CONSCIENTE DE SUA BASE TEOLÓGICA

Antes que se faça qualquer afirmação a respeito de liturgia, é preciso saber qual é sua base teológica. Quanto a isso, pode-se dizer:

A liturgia da Igreja tem base trinitária - O ponto de partida para a compreensão cristã dos atos litúrgicos da Igreja é a doutrina da Santíssima Trindade. Não há nesse ponto do estudo a intenção de tentar explicar detalhes desta doutrina. 

Mas há o desejo de apresentar a base trinitária da liturgia. Todo culto cristão é, deve, e tem que ser dirigido a Deus Pai (Ef 1:3), pela mediação de Deus Filho, o Senhor Jesus Cristo (Cl 3:17), através da iluminação de Deus Espírito Santo (I Co 12:3). 

Quanto ao aspecto trinitário da liturgia, o Dr. Andrew Blackwood afirma que o povo de Deus necessita de orientação no culto público quanto ao que crer com relação a Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e de igual maneira que deveres Deus requer do homem, como filho do Pai Celestial e como servo do seu próximo.

A liturgia da Igreja é marcada por um memorial dos atos de Deus - Todo culto a Deus é caracterizado basicamente pela recordação dos Seus atos na História. Esta é a diferença fundamental entre os cultos pagãos e o culto ao Deus Eterno na tradição judaico-cristã: nas diferentes formas de paganismo, o culto é realizado para manipular a divindade. 

Na tradição judaico-cristã, o culto é para recordar e celebrar o que Deus tem feito na História. Deuteronômio 26:1-11 (texto que alguns estudiosos chamam de "Credo da Antiga Aliança") apresenta claramente este aspecto de lembrar o que Deus fez no passado a favor do Seu povo. 

No contexto da Nova Aliança, a Santa Ceia ocupa lugar central: é a recordação dos atos salvadores de Deus através da morte e ressurreição de Cristo Jesus (I Co 11:23-26).

A liturgia da Igreja é caracterizada pela celebração - Os atos reveladores e salvadores de Deus não são apenas relembrados na liturgia - mais que isso, são celebrados. A alegria pelos atos de Deus é parte integrante da adoração ao Senhor da História. 

O livro dos Salmos é, particularmente, rico neste aspecto, ao apresentar detalhes importantes da alegre celebração ao Deus Eterno (ver, por exemplo, os Salmos 148 a 150). O Apocalipse apresenta uma celebração cósmica dos atos de Deus, que envolve homens, anjos e até animais (Ap 5:8-14).

2 - A LITURGIA DA IGREJA DEVE SER INCLUSIVA

Em seus 2000 anos de história, a Igreja cristã tem produzido uma riqueza praticamente indescritível em termos de produção litúrgica. 

E, pelo menos no Brasil, há um grande desconhecimento da riqueza litúrgica produzida em diferentes contextos culturais nesses dois milênios. A igreja brasileira precisa descobrir os tesouros litúrgicos de outras tradições cristãs.

Isso aponta para a necessidade de se ter uma liturgia que seja inclusiva, isto é, uma liturgia que inclua elementos de outras tradições cristãs. 

Para que isso aconteça, é necessário ter humildade - para admitir que há o que aprender com grupos que, embora diferentes, adoram o mesmo Deus que adoramos; e também é preciso coragem - para fazer algo diferente do que estamos acostumados.

Diferentes tradições, formadas no decorrer dos séculos, têm prestado sua parcela de contribuição à grandeza da liturgia cristã.

O Rev. Robinson Cavalcanti tem chamado a atenção para a necessidade da igreja evangélica no Brasil (que tem uma liturgia fortemente influenciada, principalmente pelas culturas norte-americana, inglesa e alemã) descobrir uma liturgia que seja de fato brasileira, incluindo elementos de nossa cultura que vão enriquecer a atividade de glorificar a Deus.

3 - LITURGIA DA IGREJA DEVE SER PARTICIPATIVA

Em sua marcha rumo ao futuro, a Igreja não pode desprezar ou esquecer suas raízes. Evidentemente, as raízes da Igreja e sua missão (que, como já foi dito, inclui a liturgia) estão localizadas em terreno bíblico.

A Escritura Sagrada apresenta o povo de Deus oferecendo ao Senhor uma liturgia tremendamente participativa, na qual crianças, mulheres e homens tomavam parte. Na celebração da Páscoa, a principal festa litúrgica do antigo Israel, as crianças tinham participação ativa (cf. Êx 12:1-6, 24-27).

É preciso resgatar o aspecto participativo da liturgia cristã. É comum haver cultos em que só o dirigente participa, enquanto o povo se limita a "assistir". Deus recebe adoração de crianças (Mt 21:14-16), de pobres, de ricos, de rapazes, de moças, de velhos, de todos, enfim (cf. Sl 148:11-13).

Recentemente, tem-se visto: "cultos jovens" (nos quais, geralmente, adultos não participam) e "cultinhos" (para crianças). 

O grande desafio é criar uma liturgia que seja verdadeiramente aberta para todas as idades, na qual todos participem plenamente, sem discriminação de idade. A liturgia da Igreja não deve privilegiar os adultos, como geralmente acontece.

4 - A LITURGIA DA IGREJA DEVE SER COMUNICATIVA

É vital que a liturgia da Igreja, hoje e amanhã, seja comunicativa. Em outras palavras: é preciso que o povo entenda os ritos e acontecimentos litúrgicos que têm lugar no culto ao Senhor.

Tem havido, muitas vezes, a realização de cerimônias em que pessoas participam (ou assistem), mas não entendem o que acontece. A liturgia precisa ser didática, ou seja, tem que ensinar, transmitir o conteúdo da fé, não apenas através da exposição da Palavra, mas também por seus atos.

Há uma ampla quantidade de recursos que a Igreja pode lançar mão para conseguir uma liturgia que seja efetivamente comunicativa. Com a intenção de comunicar e ensinar, pode-se, por exemplo, trabalhar liturgicamente mais com os sentidos do que normalmente acontece.

Quase sempre, trabalha-se apenas com o sentido da audição, para ouvir a mensagem pregada e as músicas cantadas. 

Quando há celebração da Santa Ceia, trabalha-se também o sentido do paladar e, evidentemente, também, a visão. E os outros sentidos? A Bíblia sugere um culto em que, por exemplo, o sentido do olfato é trabalhado (Sl 141:2; Ap 5:8). 

O sentido do tato também pode ser usado (I Co 16:20). Naturalmente, para que isso aconteça, a Igreja precisa ter criatividade para renovar e inovar, sem contudo, perder o temor e a reverência ao Senhor.

É interessante, também, fazer uma maior e melhor utilização dos símbolos litúrgicos cristãos. Há uma imensa simbologia na liturgia cristã que é simplesmente desconhecida de um número bastante grande de igrejas do nosso tempo.

Vale lembrar que os símbolos têm uma linguagem especial, que comunica mais à intuição, à imaginação, à sensibilidade poética que há em cada criatura humana. 

Uma liturgia com maior apelo estético pode ser bastante eficiente em sua comunicação, permitindo aos adoradores do Deus Eterno um melhor entendimento do que estão fazendo.

Podem-se utilizar, por exemplo, cores e gestos - como o lavar os pés (Jo 13:1-14), símbolo da humildade dos discípulos do Senhor Jesus, e muitos outros. Não se deve jamais esquecer que, absolutamente nada pode ocupar o lugar de glória na liturgia cristã, que pertence apenas a Deus.

5 - A IGREJA DEVE TER UMA LITURGIA TERAPÊUTICA

Ultimamente, devido à influência do movimento pentecostal, tem sido dada grande ênfase a uma liturgia que seja bastante barulhenta. Os que defendem um tipo assim de liturgia pensam que, quanto mais barulhento e "animado" é o culto, mais "quente" e mais "espiritual" é a Igreja.

É preciso, no entanto, lembrar que há espaço no culto a Deus para o silêncio. O momento de oração silenciosa no culto é extremamente significativo: é uma oportunidade para que as pessoas olhem para dentro de si mesmas, e percebam falhas que precisam ser corrigidas e problemas que precisam ser tratados. Assim, há um grande valor terapêutico e curador na liturgia.

Em geral, nossa sociedade tem medo do silêncio. As pessoas quase sempre não querem ficar a sós consigo mesmas. É preciso coragem para fazer isso. Silêncio no culto não é, necessariamente, sinal de frieza ou fraqueza da Igreja. Pelo contrário, é uma chance de experimentar crescimento espiritual no momento de adoração a Deus.

6 - A IGREJA DEVE TER UMA LITURGIA GLORIFICADORA

Finalmente, é importante destacar que a liturgia não é um fim em si mesma. A liturgia existe para glorificar a Deus. Com muita sabedoria, o Catecismo de Westminster (adotado pelas igrejas presbiterianas) diz que o fim principal do ser humano é glorificar a Deus e desfrutar com Ele um relacionamento agradável e prazeroso.

A glorificação de Deus e o relacionamento com Ele devem estar presentes em todas as dimensões da vida dos fiéis. Mas o culto é uma oportunidade especial para que Deus seja glorificado. A liturgia cristã existe basicamente para isso.

O testemunho bíblico é unânime em apontar para a glória de Deus, que deve ser buscada nos serviços de culto (Lc 24:53; Ap 7:9-12; 15:3-4; 19:1-8 etc). O culto é o momento adequado para os fiéis derramarem a alma perante o Senhor com alegria, entusiasmo e liberdade, através de cânticos e orações e dos demais atos litúrgicos.

Esta verdade bíblica deve ser destacada, pois, recentemente, têm-se visto algumas liturgias feitas para glorificar o cantor "estrela", a banda de música estilo "gospel", ou o pregador famoso e "poderoso". Isto é abominável aos olhos do Senhor. Apenas o Deus Todo-Poderoso deve ser glorificado, por intermédio da ação do Espírito Santo, e em nome do Senhor Jesus Cristo.

Que a liturgia da Igreja, em todas as épocas, seja integral em seu conteúdo, contextualizada em sua forma e, acima de tudo, verdadeiramente glorificadora, agradável ao nosso Deus!

DISCUSSÃO

1 - Quando é que a liturgia deixa de glorificar a Deus para glorificar o homem?

2 - A partir do conceito de uma liturgia inclusiva, o que você acha de "cultos jovens" e "cultinhos" para crianças na Igreja?

Autor: REV. CARLOS RIBEIRO CALDAS FILHO


Lista de estudos da série

1. Você é o líder que sua igreja precisa? – Estudo Bíblico sobre Liderança Cristã
2. O segredo da igreja que enxerga além – Estudo Bíblico sobre Visão e Propósito
3. Sua fé é forte ou apenas uma miragem? – Estudo Bíblico sobre Doutrina Sadia
4. A bússola moral que o mundo perdeu – Estudo Bíblico sobre Ética Cristã
5. As paredes nos definem ou nos limitam? – Estudo Bíblico sobre Organização da Igreja
6. O manual da adoração que toca os céus – Estudo Bíblico sobre Liturgia
7. A igreja está falando grego no século 21? – Estudo Bíblico sobre Comunicação
8. Festa também é evangelismo de verdade – Estudo Bíblico sobre Comunhão
9. O guia infalível da missão integral – Estudo Bíblico sobre o Chamado da Igreja
10. Sua fé tem coragem para mudar o mundo? – Estudo Bíblico sobre Engajamento Social
11. Como sua igreja pode finalmente crescer – Estudo Bíblico sobre Maturidade Espiritual
12. As 3 chaves da tolerância sem fraqueza – Estudo Bíblico sobre Unidade na Diversidade
13. A surpreendente verdade sobre a união das igrejas – Estudo Bíblico sobre Ecumenismo``

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