Atos 11.18
“E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade, até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida.”
Introdução
Um dos maiores obstáculos que o cristianismo primitivo superou foi o preconceito profundo que dominava a mente de seus primeiros seguidores.
Os apóstolos e os crentes judeus estavam tão apegados à ideia de que a salvação pertencia exclusivamente a Israel que não conseguiam aceitar que Jesus tinha vindo para ser o Salvador de todas as nações.
Foi preciso uma visão divina para que Pedro ousasse pregar a Cornélio, um gentio. Mesmo assim, ao voltar, ele foi confrontado por outros cristãos: “Você entrou na casa de homens incircuncisos e comeu com eles!”.
Apenas quando Pedro relatou como o próprio Deus o havia guiado, eles cederam. A graça foi tão poderosa que quebrou suas barreiras e, contra toda a sua formação, eles glorificaram a Deus, dizendo: “Então, até aos gentios Deus concedeu o arrependimento para a vida”.
Hoje, não estamos mais presos a essas barreiras, mas o tema central permanece vital: o que é esse “arrependimento para a vida”?
É um arrependimento que vem acompanhado da própria vida espiritual e que garante a vida eterna para quem o possui. Existem outros tipos de “arrependimento” que não são sinais de vida espiritual, nascendo apenas da consciência culpada ou do medo. Mas este arrependimento específico é gerado pelo Autor da vida.
Quando ele acontece, aquele que estava “morto em seus delitos e pecados” é vivificado com Cristo. Aquele que não tinha sensibilidade espiritual passa a receber a Palavra com mansidão. Esse é o arrependimento que nos leva à salvação, o germe que contém tudo o que é essencial para sermos salvos.
Vamos, então, examinar com cuidado este arrependimento. Primeiro, vamos analisar os falsos arrependimentos. Em segundo lugar, veremos os sinais do verdadeiro arrependimento. E, por fim, celebraremos a maravilhosa bondade de Deus, que *concede* o arrependimento para a vida.
1. Cuidado com os falsos arrependimentos
Muitas coisas se parecem com arrependimento, mas não são. É crucial saber a diferença.
Apenas emoção não é arrependimento
Tremer debaixo da pregação do evangelho não é arrependimento. Muitas pessoas são profundamente tocadas por um sermão. Seus olhos se enchem de lágrimas, seus joelhos tremem. Elas sentem o peso da Palavra e o medo do juízo.
Talvez isso já tenha acontecido com você. Você sentiu um calafrio ao ouvir sobre o inferno, ficou comovido com uma história sobre o amor de Deus, mas isso não significa que você se arrependeu. A emoção pode ser apenas um reflexo momentâneo, não uma mudança de coração.
Lembre-se de Félix, o governador. Enquanto Paulo pregava sobre “justiça, domínio próprio e o juízo vindouro”, a Bíblia diz que “Félix ficou amedrontado”. Ele tremeu, mas sua resposta foi: “Por agora, vai-te; e, em tendo oportunidade, te chamarei”. Essa oportunidade nunca chegou. Ele sentiu o impacto, mas não se arrependeu.
Quase se converter não é se converter
É possível ir além da simples emoção e, como o rei Agripa, ser “quase persuadido” a se tornar um cristão. Você pode ouvir o evangelho e pensar: “Isso é maravilhoso! Eu queria ter essa paz, essa esperança”.
Você pode até concordar com a mensagem, desejar a salvação e orar pedindo que Deus o abençoe. No entanto, como Agripa, você pode parar no “quase”. Ele foi “quase persuadido”, mas não totalmente.
Imagine um corpo que acabou de morrer. A pele ainda tem cor, a mão ainda está quente. Quase parece que respira. Tudo está no lugar, a decomposição ainda não começou. Mas a vida se foi. Assim são muitos: quase vivos espiritualmente. Eles têm quase todos os sinais externos da religião, mas falta o principal: a vida de Deus neles.
Humilhação temporária não é arrependimento
Alguns vão ainda mais longe. Eles se humilham debaixo da mão de Deus, mas apenas por um tempo. Após um sermão impactante, eles vão para casa e decidem mudar. Abandonam alguns vícios, vestem-se com humildade, choram por seus erros. Parece real.
Mas, com o tempo, a velha vida volta. Lembra-se do rei Acabe? Após roubar a vinha de Nabote, o profeta o confrontou com o juízo de Deus.
A Bíblia diz que Acabe “se humilhou”. E Deus, vendo isso, adiou o castigo. Mas, no capítulo seguinte, Acabe estava de volta à sua rebelião e morreu em pecado. Sua humildade foi motivada pelo medo do castigo, não pelo ódio ao pecado.
Muitos fazem o mesmo. Têm medo do inferno, não do pecado. Se o inferno não existisse, continuariam a pecar com ainda mais vontade. Não se engane. Você pode se humilhar por um tempo e, ainda assim, nunca se arrepender de verdade.
Confissão e restituição não são tudo
Ainda é possível ir mais longe e confessar o pecado, e até mesmo fazer alguma restituição, sem arrependimento genuíno. O exemplo mais trágico é Judas Iscariotes.
Depois de trair Jesus, Judas foi tomado por um sentimento esmagador de culpa. Ele foi aos sacerdotes e confessou: “Pequei, traindo sangue inocente”. Ele devolveu o dinheiro, jogando as moedas de prata no templo, mostrando que não suportava carregar o preço de sua traição.
Ele confessou. Ele fez restituição. E depois? Foi salvo? Não. “Ele saiu e se enforcou.” Ele sentiu o remorso da culpa, a miséria do desespero, mas não a tristeza segundo Deus que leva à vida.
Isso não nos faz tremer? É possível imitar o cristão de forma tão perfeita que apenas o olho de Deus pode ver a diferença.
Aplicação Prática
- Avalie suas experiências: Você já teve momentos de grande emoção espiritual que não resultaram em mudança duradoura? O que faltou? Não confunda um arrepio na espinha com a conversão da alma.
- Questione sua motivação: Quando você se sente mal por algo que fez, sua tristeza é pelo pecado em si ou pelas consequências negativas (medo de ser descoberto, vergonha, medo do inferno)?
- Passe do "quase" para o "totalmente": Se você se identifica com Agripa, que estava "quase persuadido", pergunte-se: o que está me impedindo de me entregar totalmente a Cristo? Qual reserva, qual pecado, qual orgulho está no caminho?
2. Os sinais do verdadeiro arrependimento
Agora que vimos as falsificações, vamos analisar as marcas do arrependimento genuíno. Mas antes, vamos corrigir alguns erros comuns.
Primeiro erro: pensar que arrependimento exige terror. Muitos acham que, para se arrepender de verdade, precisam passar por uma experiência horrível de pavor da lei e do inferno. Eles dizem: “Eu não me sinto pecador o suficiente. Queria ter sido pior, para que minha convicção fosse mais forte”.
Isso é um grande engano. Esses pensamentos aterrorizantes, muitas vezes, nem vêm de Deus, mas são sugestões do diabo. O arrependimento é, em sua essência, um ódio e um abandono do pecado. Isso pode acontecer sem os trovões do Sinai.
Deus pode nos atrair com a voz suave da misericórdia. Alguns corações, como o de Lídia, são abertos suavemente. Outros são arrombados pela marreta da lei. O método não importa; o que importa é a mudança real.
Segundo erro: pensar que precisamos nos arrepender “o suficiente”. Outros se preocupam: “Eu não tenho arrependimento suficiente para ser salvo”. Queridos, não existe uma quantidade mínima de arrependimento necessária para a salvação.
Assim como a menor fé verdadeira salva, o menor arrependimento sincero também salva. O arrependimento, aliás, nunca é perfeito nesta vida.
É um ato que dura a vida toda. Um cristão, em seu leito de morte, provavelmente se arrependerá mais profundamente do que nunca. Não espere um arrependimento perfeito para ser salvo. Tenha um arrependimento sincero, e ele crescerá.
Então, quais são os sinais desse arrependimento sincero?
1. Ele sempre vem com tristeza
Ninguém jamais se arrepende do pecado sem sentir algum tipo de tristeza por ele. Pode ser mais ou menos intensa, mas a dor pelo pecado deve estar presente. Um arrependimento sem lágrimas (sejam elas literais ou do coração) é um arrependimento seco, que precisa ser reexaminado.
Isso não significa que todos devam chorar rios de lágrimas. Algumas pessoas, por sua constituição, não choram facilmente. Mas, se não houver a lágrima no olho, deve haver o gemido no coração.
Deve haver um peso, uma dor real por ter ofendido a Deus. Um coração que nunca se quebrou pelo pecado provavelmente nunca foi curado por Cristo.
2. Ele é prático e muda nossa vida
Não basta dizer “sinto muito” e continuar vivendo da mesma maneira. Muitas pessoas lamentam seus erros passados. “Ah, eu me arrependo tanto de ter feito aquilo!” E, no dia seguinte, fazem de novo.
Como podemos acreditar em um arrependimento que não muda o comportamento? A árvore é conhecida por seus frutos. O verdadeiro arrependimento produz obras de arrependimento.
Lembro-me da história de um homem que, após ouvir um sermão sobre roubo, procurou o pastor no caminho de casa. Ele carregava uma pá debaixo do casaco e disse: “Eu roubei esta pá daquela fazenda. Depois de ouvir sua pregação, preciso devolvê-la”. Isso é arrependimento prático.
3. Ele é duradouro
Seu arrependimento dura ou é como a febre que vem e vai? Muitos têm ataques de piedade. Por algumas semanas, abandonam seus maus hábitos, frequentam a igreja e falam como filhos de Deus. Mas logo retornam aos seus pecados, como o cão volta ao seu vômito.
O verdadeiro arrependimento não é um evento, mas o início de um processo contínuo. Ele resiste ao tempo. Ele não desaparece quando a crise passa. Ele se torna uma característica permanente do nosso caráter.
4. Ele odeia o pecado em si
Este é o teste final. Você se arrepende do seu pecado porque tem medo do castigo, ou porque odeia o pecado em si? Imagine que não houvesse inferno nem recompensa celestial. O que você escolheria? Você ainda desejaria a santidade? Você ainda odiaria a mentira, a cobiça, a impureza?
O pecador no corredor da morte odeia seu crime por causa da forca. A criança odeia a desobediência quando o castigo se aproxima. Mas o verdadeiro penitente odeia o pecado porque ele é uma ofensa a um Deus santo e amoroso.
Se você pode dizer, pela graça de Deus: “Eu escolheria a justiça mesmo sem recompensa e fugiria do pecado mesmo sem punição”, então você tem um arrependimento que é para a vida.
Aplicação Prática
- Examine seu coração: Você sente uma tristeza genuína por ter ofendido a Deus, ou apenas lamenta as consequências negativas de seus atos?
- Identifique os frutos: Que mudanças práticas o seu arrependimento produziu em sua vida? Em que áreas específicas você abandonou o pecado e buscou a santidade?
- Teste sua lealdade: Em um momento de sinceridade, pergunte a si mesmo: "Eu amo a Deus ou apenas a ideia de escapar do inferno?" A resposta revelará a verdadeira natureza do seu coração.
3. O arrependimento é um presente de Deus
O arrependimento, meus amigos, é um dom de Deus. É a maravilhosa misericórdia divina em ação. Deus não apenas providenciou um caminho para a salvação e nos convidou a trilhá-lo; ele, positivamente, *nos torna dispostos* a sermos salvos.
Imagine que você preparou um grande banquete e enviou convites. Se os convidados recusassem, o que você faria? Você iria até a casa de cada um e os convenceria a vir? Se, mesmo sentados à mesa, eles se recusassem a comer, você os alimentaria à força?
Provavelmente não. Você diria: “ azar o deles”. Mas o que Deus faz? Ele diz: “Eu preparei a festa. Se eles não vierem, meus servos irão às ruas e os constrangerão a entrar, para que minha casa fique cheia”.
Não é um ato espantoso de misericórdia que ele mesmo nos torne dispostos? Ele não usa a força bruta, mas uma doce persuasão espiritual.
O Espírito Santo aplica a Palavra de Deus à nossa consciência de uma forma tão poderosa que não conseguimos mais recusar o amor de Jesus. ele não age *contra* a nossa vontade, mas *muda* a nossa vontade.
Ó pecador perdido, admire a misericórdia do meu Mestre! Ele não apenas oferece o banquete, mas nos leva a participar dele. Nós éramos cativos relutantes, mas agora somos feitos dispostos. Que graça soberana!
Conclusão
Talvez você diga: “Senhor, tenho tentado me arrepender há muito tempo”. Deixe-me dizer algo: você tentará por muito tempo e não conseguirá. Esse não é o caminho.
A maneira de se arrepender é, pela graça de Deus, olhar para Jesus. Contemple seu lado ferido, sua coroa de espinhos, seu grito de angústia na cruz. Eu garanto que ninguém pode, sob a influência do Espírito Santo, contemplar a cruz de Cristo sem ter um coração quebrantado.
Se você quer fé, ele a dá. Se quer arrependimento, ele o dá. Se quer vida eterna, ele a dá generosamente. Olhe para a cruz e ouça o grito: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Isso gerará arrependimento. Isso fará você chorar e dizer: “Ah, foi por mim que meu Salvador sangrou? Foi por mim que meu Soberano morreu?”.
Portanto, se você deseja o arrependimento, meu melhor conselho é este: olhe para Jesus. Que o bendito Doador do arrependimento o guarde das falsificações e lhe conceda aquele que é para a vida.
Adaptado do sermão "Repentance Unto Life" (Nº 44), pregado por C. H. Spurgeon em 23 de setembro de 1855, no New Park Street Chapel, Southwark, Londres.
