O significado da palavra 'batizar' no grego clássico e as definições dos dicionários


Por Philipe Landes

A palavra ‘batizar’ no grego clássico
No grego clássico, salvo raras exceções, a palavra baptizo tem o sentido de imergir ou submergir e é esse o seu significado etimológico.

Baseando-se nesses fatos, há pessoas que insistem na imersão como o único modo de administrar o batismo cristão.

Acham que o mandamento dado por Jesus para batizar importa em um mandamento para imergir, mas essas pessoas não levam em conta o fato que a linguagem humana evolui e as palavras mudam de significação.

Bem poucas são as palavras que conservam rigorosamente o seu sentido primário ou etimológico.

Exemplo 1 - Palavra 'sinceridade'
A palavra sinceridade vem de sincero, por sua vez, se deriva etimologicamente de sine cera.

Nos tempos idos da latinidade, quando se mandava fazer uma obra por mãos de um marceneiro, exigia-se que fosse feita sine cera, isto é sem cera para tapar os defeitos.

A mobília não devia ter defeitos escondidos e tapados com cera.

O homem leal, sem defeitos que procura esconder do público, é um homem sincero.

Eis aí a origem da palavra sinceridade, mas hoje mais ninguém fala em uma mobília sincera.

Exemplo 2 - Palavra 'melancolia'
Temos um outro exemplo na palavra melancolia.

Esse termo vem de duas palavras gregas, meias e chole que significam preto e bílis. Os antigos pensavam que a causa da tristeza ou do mal humor era uma bílis preta produzida dentro do corpo.

Eis a origem etimológica da palavra melancolia, mas, ninguém, hoje, ao pronunciar essa palavra, pensa em bílis preta. O seu sentido moderno é diferente do etimológico.


Exemplo 3 - Palavra 'hipócrita'
A palavra hipócrita é também derivada do grego ipocrisis que significava um ator, isto é, uma pessoa que representava um papel qualquer no teatro.

No sentido original, um hipócrita era um ator mascarado, mas, já no tempo de Jesus, e nos nossos tempos, um hipócrita é uma pessoa fingida e desleal.


Outros termos com sentido técnico: banca, carne, presbítero, diácono
Além disso, há termos comuns que, às vezes, se tornam, para qualquer ofício, termos técnicos.

A palavra banca, por exemplo, vem de banco. Fala-se na banca de um carpinteiro, na banca do jogo, na banca examinadora dos colégios e na banca do advogado.

Em cada um desses exemplos a palavra tem um sentido especializado ou técnico. Demonstraremos que assim aconteceu com o termo baptizo que chegou a ter no Novo Testamento um sentido técnico.

A palavra carne tem um sentido bem diferente para um açougueiro e para o apóstolo Paulo, quando este contrasta os frutos da carne com os frutos do Espírito.

A religião do Novo Testamento tem os seus termos técnicos ou especializados. Sarx, a carne, nos escritos do apóstolo Paulo tem um sentido bem diferente daquele que lhe dão os escritores clássicos.

O termo presbítero, no grego clássico, significava ancião, mas chegou a ser o nome de um oficial da Igreja. O mesmo se deu com o termo diácono que significava, no grego clássico um criado.

Está claro, portanto, que o sentido primário ou etimológico de uma palavra nem sempre nos dá o seu sentido bíblico ou o sentido que, hoje em dia, se lhe deve dar...

A palavra 'batizar' no Novo Testamento 
Basta um pouco de reflexão para se perceber, que a palavra grega baptizo, como é empregada pelos escritores do Novo Testamento, tem um significado diferente do sentido etimológico da mesma palavra.

O seu sentido etimológico, no grego clássico, era imergir, mas sem nenhuma significação religiosa, conquanto no Novo Testamento a palavra tem sempre uma aplicação religiosa.

Grego Clássico vs Novo Testamento
Por exemplo, no grego clássico, tingia-se uma veste mergulhando-a, isto é batizando-a em tinta. No Novo Testamento não se encontra esse emprego da palavra. Batizar no Novo Testamento é um ato religioso e nenhuma relação tem com a profissão de tintureiro.

Os batismos do grego clássico não exigiam água, pois, quando eram imersões, podiam ser feitos não só em água, mas também em tintas, em óleo, em mel, em vinagre, ou outro líquido qualquer. Ao contrario disso, os batismos do Novo Testamento, excetuando-se os figurados, eram sempre feitos com água.

Além disso, a imersão clássica, ou seja, o batismo no seu sentido etimológico, podia ser praticado com um animal irracional qualquer, como um cachorro, um gato ou uma rã, mas o batismo ritual do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo, era para ser aplicado somente a pessoas.

Seria possível, mergulhar um gato, isto é, batizá-lo, no sentido etimológico da palavra, mas essa imersão não seria um batismo no sentido bíblico desse vocábulo. Já se vê que o sentido etimológico é um, e o bíblico é outro.

Faz diferença Moisés ou Jesus?
Se falássemos a uma pessoa profana, que conhecesse somente o grego clássico, em ser batizado em Moisés (eis ton Mosen) ou em Cristo Jesus (eis Xriston Iesoun), essas expressões figuradas e técnicas do Novo Testamento não teriam, para essa pessoa leiga, nenhuma significação razoável.

Mas, para os crentes iniciados na religião cristã, essas expressões são repletas de profunda significação religiosa.

Não é, pois, no grego clássico que devemos procurar definições para os termos religiosos empregados no Novo Testamento.

Conclusão - ficamos com qual definição? Grego clássico ou o Novo Testamento?
A conclusão a que chegamos é esta: que o grego clássico não pode estabelecer leis para se determinar a significação de palavras de sentido especializado no Novo Testamento.

O fato que no grego clássico a palavra baptizo significa emergir não exige, de maneira nenhuma, que tenha a mesma significação no Novo Testamento.

E, de fato, já ficou demonstrado, com provas abundantes, que o aludido vocábulo grego não tem, no Novo Testamento, o significado exclusivo de imergir.

Ademais, já fomos além disso e provamos que há muitos passos no Novo Testamento em que essa palavra não pode ter o sentido de imergir e não encontramos nenhum passo em que necessariamente tenha esse significado.

Seria bem melhor que, os clássicos ficassem com os seus batismos profanos e nós com o nosso batismo cristão.

A palavra ‘batizar’ nos dicionários
Visto como os defensores da imersão, como o único batismo, apelam muito para os dicionários e os léxicos gregos, é necessário dar alguma atenção a essa parte do assunto.

Como preliminar, convém dizer que as definições dos dicionários não têm muito valor como árbitros da questão, porque são falhos e não podem eles determinar o sentido de uma palavra, e sim o emprego dessa palavra pelos bons escritores.

As definições dos dicionários são corretas apenas quando baseadas no emprego de palavras por bons autores.

É por isso que, em primeiro lugar fizemos o nosso apelo ao emprego da palavra baptizo pelos escritores do Novo Testamento.

Afirmam alguns imersionistas extremados que a palavra “batizar", tanto no grego como nas línguas modernas, significa somente imergir ou mergulhar. Para provar o que afirmam apelam para os dicionários e léxicos.

Refutação 1 - A Verdade Sobre o Batismo - Dr. I. M. Haldman
Temos em mãos um pequeno tratado, "The Truth about Baptism", do eminente pastor imersionista de Nova York, o Dr. I. M. Haldeman que sustenta o aludido ponto de vista e cita o testemunho de muitos lexicógrafos e sábios para provar que "batizar" é só "imergir".

O dicionário Webster
Entre outros dicionários, é citado o de Webster, nos seguintes termos: "Baptize, to dip in water" (batizar, mergulhar em água).

No entanto, o eminente pregador imersionista não citou a definição exatamente e nem completamente, como foi dada por Webster. O Webster dá como origem da palavra baptizein (batizar) o verbo grego baptein.

É o verbo grego baptein que ele define como "mergulhar em água" e não o verbo "batizar". "Batizar" ele define da seguinte forma: "To dip or immerse in water, or to pour or sprinkle water upon, as a religious rite or cerimony; to administer the rite of baptism to."

Em português a definição de Webster seria esta: "Mergulhar ou imergir em água, ou derramar ou aspergir água sobre, como um rito religioso ou cerimônia; administrar o rito do batismo a alguém".

Pelo exposto, torna-se claro que o notável pastor nova-iorquino citou mal a definição de Webster que admite a aspersão e o derramamento como batismos.

Léxico Dr. Robinson
O mesmo Dr. Haldeman, para provar que "batizar" é só "imergir", cita também o léxico grego do Novo Testamento do Dr. Robinson. Mais uma vez a citação foi feita de um modo incompleto: Ei-la: "Baptizo, mergulhar em, submergir, imergir.”

Consultando o léxico do Dr. Robinson, descobrimos que a definição acima citada é para o grego clássico e não para o grego do Novo Testamento.

Mas, até mesmo no grego clássico, o Dr. Robinson cita um exemplo do emprego da palavra, em que não se trata de uma imersão completa.

O escritor clássico Polibio se refere a soldados de infantaria que foram "batizados", até os peitos, em um brejo. Houve, nesse caso, apenas uma imersão parcial e não total como se faz nos batismos dos imersionistas.

E como define o Dr. Robinson a palavra baptizo no grego do Novo Testamento? É esta a sua definição: "lavar, limpar lavando, batizar e administrar o rito do batismo".

Diz mais o Dr. Robinson:

"Conquanto nos escritores gregos, desde Platão, baptizo é sempre afundar, imergir, cobrir inteira ou parcialmente; todavia, no grego helenístico, e especialmente com referência ao rito do batismo, parece nem sempre exprimir simplesmente imersão, mas a ideia mais geral de ablução ou afusão". 

Já se vê que o Dr. Robinson não concorda com a declaração: "Batizar é só imergir".

Léxico de Liddel e Scoot
No intuito de provar que "batizar é só imergir", o Dr. Haldeman cita o léxico da língua grega de Liddell e Scott.

Mais uma vez, o eminente pastor citou as definições pela metade. Além dos termos sinônimos de imergir, citados pelo Dr. Haldeman, Liddell e Scott dão outras definições.

Baptizo, nesse léxico, não é só imergir, mas também mergulhar repetidas vezes, afundar, banhar-se, ficar saturado e puxar água. Ainda mais, bapto não é só imergir, mas também temperar, tingir, colorir e vidrar.

Assim "baptistes", é uma pessoa que tinge, um tintureiro ou um batizador e baptistis, além de mergulho, pode, também significar um banho, uma lavação ou um puxar de água.

A Enciclopédia Britânica
A Enciclopédia Britânica também citada pelo Dr. Haldeman, não favorece a definição restrita dos imersionistas.

A citação feita pelo Dr. Haldeman é a seguinte: "As palavras gregas baptismos e baptisma do verbo baptizo, a forma mais curta bapto, significando mergulhar.”

Pela própria citação, percebe-se que é só bapto que a Enciclopédia define como mergulho, mas a citação feita é incompleta. Ei-la na íntegra:

As palavras gregas baptismos e baptisma (ambas encontradas no Novo Testamento) significam “lavação cerimonial”, do verbo baptizo, a forma mais curta bapto significando mergulhar, sem significação ritual (isto é, meter o dedo em água, uma veste em sangue).

Está claro que a Enciclopédia Britânica define o batismo como uma lavação cerimonial e distingue esse termo de bapto que significa mergulhar ou meter dentro de, como quando se mete o dedo em água ou uma veste em sangue.

Já se vê que a Enciclopédia Britânica não restringe o sentido da palavra batismo à imersão, como quer o Dr. Haldeman.

Dicionários portugueses
A afirmativa, feita por alguns imersionistas, que, em todas as línguas, batizar significa sempre e só imergir, encerra um conceito absolutamente insustentável, à luz dos dicionários e da literatura que versa sobre o assunto.

Vejamos o que dizem alguns dicionários portugueses.

Cândido Figueiredo, assim define o batismo:

Ablução, imersão. Primeiro sacramento da Igreja cristã, que consiste na ablução externa do corpo, para que se realize a purificação da alma; Batizar é administrar o batismo. Dar nome, alcunha; epíteto. Adulterar certos líquidos, deitando-lhes água.

Simões da Fonseca dá muitos sentidos à palavra "batismo", sem, todavia, dar o seu sentido primário e etimológico de imersão.

Aulete assim define o batismo:

O primeiro dos sete sacramentos da igreja, que apaga o pecado original, e consiste em derramar água por cima da cabeça do neófito, acompanhando este ato de bênçãos e fórmulas solenes.

Para Aulete, batizar não é imergir.

José T. da Silva Bastos dá a seguinte definição do termo batismo:

Primeiro sacramento da Igreja cristã e consiste em derramar água por cima da cabeça do neófito; admissão solene na igreja; festa em que se celebra esse fato; iniciação; consagração; ato de dar nome a uma pessoa ou coisa (navio, sino, etc.).

A definição de Morais favorece mais as ideias dos imersionista:

Batismo, do grego baptismos, imersão, de bapto, eu lavo, mergulho, porque na origem batizava-se mergulhando em água. O primeiro dos sete sacramentos da igreja ,o qual é administrado lançando-se água sobre a cabeça do neófito; ato que é acompanhado de rezas e bênçãos. Por este sacramento se apaga o pecado original e se entra no grêmio cristão.

Não concordamos com os conceitos teológicos emitidos nas definições dadas acima. Citamo-las, apenas para mostrar que imersão não é o único sentido atribuído pelos autores de dicionários à palavra batismo.

RESUMO


Julgamos ser de utilidade dar, em seguida, um resumo dos nossos estudos sobre a palavra baptizo:

1 - No grego clássico a palavra baptizo teve, sem dúvida, o sentido de imergir, submergir ou mergulhar. Foi esse o seu sentido etimológico e primário, mas, visto como, as palavras evoluem, não conservou sempre o significado primitivo.

No mesmo grego clássico, como diz o Dr. Charles Hodge, baptizo tem os seguintes significados:

[1] Imergir ou submergir,
[2] inundar ou cobrir com água,
[3] molhar completamente ou umedecer,
[4]derramar sobre ou ensopar e
[5] ser abismado ou sobrepujado do qualquer maneira. Dizia-se dos bêbados, que estavam batizados com vinho.

O escritor Polibio se refere aos soldados de infantaria que, ao atravessar um rio, foram "batizados até os peitos" em um brejo. O batismo desses soldados não foi uma imersão.

2 - No grego dos livros apócrifos acrescentados ao Velho Testamento pela Igreja Romana, encontramos em Eclesiástico 34:30 um exemplo claro de batismo por aspersão. O batismo de que se trata era uma aspersão feita para purificar a quem tivesse tocado em um cadáver, como se verifica do estudo de Números 19 e Hebreus 9:13,14.

3 - Na Versão dos Setenta emprega-se a palavra baptizo duas vezes. Lemos nessa Versão que Eliseu deu ordens para que Naaman se lavasse sete vezes no Rio Jordão e este obedeceu a ordem, batizando-se sete vezes. Conclui-se, portanto, que Naamã, tomando banho, podia ter mergulhado, pois a palavra baptizo, às vezes, tem esse sentido.

No segundo caso em que se emprega a palavra baptizo, esse vocábulo tem um sentido figurado. A expressão é esta: "Sobrepujou-me a iniquidade". O original diz: " batizou-me a iniqüidade".

4 - No Novo Testamento, como já ficou provado, há muitos casos de batismos que não foram imersões, a saber: Os batismos tradicionais dos judeus, os vários batismos cerimoniais de Hebreus 9:10, o batismo dos israelitas no mar e na nuvem, o batismo dos três mil no dia de Pentecostes, o batismo de Paulo, o batismo do martírio de Jesus a que Ele se refere em Lucas 12:50, o batismo com o Espírito Santo e os vários outros batismos figurados em que não fica bem substituir a palavra batismo por imersão.

5 - O grego patrístico apresenta-nos abundantes exemplos de batismos que não eram imersões. Para esses escritores o aspergimento do sangue dos mártires sobre os próprios corpos era um batismo de sangue. As purificações dos judeus praticadas, enquanto reclinavam nos leitos, eram batismos.

O escorrer de lágrimas pela face era um batismo de lágrimas e o derramamento de água sobre um altar era ainda outro batismo. E esses batismos não eram imersões.

6 - O precioso livrinho "O ensino dos Apóstolos", a Didaquê, recomenda, em determinadas circunstâncias, um batismo por derramamento de água sobre a cabeça do batizando. A Didaquê é, na opinião dos eruditos, um dos mais antigos documentos pós-apostólicos que têm chegado aos nossos dias.

O trecho a que aludimos, assim reza: "Derrama água sobre a cabeça três vezes” - ekxeon eis ten kephalen tris hudor. Eis pois, um caso insofismável de um batismo por derramamento que nos vem do tempo logo após a era apostólica.

Conclusão
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