Um só Senhor, uma só fé, um só batismo




Não raras vezes os nossos irmãos imersionistas citam Efésios 4:5 como se a referência fosse a um só modo de batismo. Mas não é isso o que diz essa passagem e nem é esse o seu sentido.

Leiamos o trecho todo:

Portanto vos rogo eu, o prisioneiro do Senhor, que andeis de uma maneira digna da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em caridade, esforçando-vos diligentemente para guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz; um só corpo há e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos e por todos e em todos. Mas a cada um de nós foi dada a graça conforme a medida do dom de Cristo.

O mais leve exame dessa passagem torna patente o fato que Paulo se refere a uma unidade espiritual e não a uma unidade de formas de culto ou de celebração de ordenanças.

A unidade é do Espírito e o batismo também deve ser do Espírito Santo, visto como, é esse o batismo que une a todos os cristãos em um só corpo espiritual que é a verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nenhuma referência há ao batismo com água nessa passagem e muito menos ao modo desse batismo. Os cristãos estão todos unidos uns aos outros em uma só Igreja invisível, pela mesma fé em um só Pai de todos, em um só Salvador e Senhor e em um só Espírito Santo unificador de todos.

A expressão um só batismo deve se referir, portanto, ao batismo do Espírito Santo que une a todos os crentes no corpo místico de Jesus que é a sua Igreja e não pode se referir a um só modo de batizar com água.

A unidade espiritual que deve existir entre todos os crentes e entre todas as denominações evangélicas é muito mais importante do que a uniformidade de ritualismo ou de formas de culto.

Essa unidade espiritual, com referência aos grandes fundamentos da fé cristã serve de base para uma real cooperação cristã entre todas as denominações evangélicas, uma vez que não permitamos que pequenas questões secundárias nos dividam.

Precisamos dar mais ênfase às grandes verdades que nos unem do que às pequeninas questões que nos separam uns dos outros. Todos nós, os crentes evangélicos, cremos em um só Deus vivo e verdadeiro que consiste em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Cremos na Bíblia como a nossa regra única de fé e pratica. Cremos em um só Salvador, sem o qual não há possibilidade de salvação.

Cremos no poder regenerador e santificador do Espírito Santo. E, da parte do homem, cremos na necessidade do seu arrependimento e fé em Jesus Cristo para a salvação da sua alma. Cremos, outrossim, na nova vida espiritual que resulta da fé em Jesus Cristo.

Sobre essas grandes verdades básicas do Evangelho estamos unidos e, por isso mesmo, podemos combinar para propagá-las conjuntamente.

Unidos por um só batismo do Espírito Santo e, deixando de parte as questões secundárias de modos de administrar ordenanças, tratemos de pregar as condições essenciais da salvação em Jesus Cristo à humanidade perdida. Formando, desse modo, uma frente única, havemos de nos tornar mais fortes em nosso combate às forças do mal.

Atendamos à exortação de Paulo que nos suplica: "Suportai-vos uns aos outros em caridade, esforçando-vos diligentemente para guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz".

Deste modo, taparemos a boca daqueles inimigos do evangelho que gostam de proclamar que os protestantes estão divididos em muitas seitas que se guerreiam umas às outras.

Não demos ao mundo o triste espetáculo da divisão, mas sejamos unidos em um só Espírito, para a glória do nosso Deus, afim de que se cumpra em nós o desejo do nosso Salvador expresso na sua oração sacerdotal: ”que todos sejam um, e que, como tu, Pai, és em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17:21).

Graves males resultam de polêmicas acerbas entre cristãos sobre questões secundárias. Os mundanos se escandalizam com a falta de união entre cristãos e essa falta de união serve de pretexto para a rejeição do evangelho.

Está claro que, se um cristão acusa a outro cristão de desobediência aos preceitos de Jesus e de teimosia, nessa desobediência, isso causa uma depreciação do evangelho no conceito dos incrédulos que ouvem a acusação.

O duvidar da sinceridade dos nossos irmãos na fé é uma falta condenada por Paulo. "Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio amo está em pé ou cai; mas ele estará firme, porque poderoso é o Senhor para o firmar" (Romanos 14:4).

Há crentes sinceros que julgam dever ser o batismo exclusivamente por imersão e há outros crentes que julgam ser bíblico o batismo por aspersão ou afusão. "Esteja cada um plenamente convencido em sua mente" (Romanos 14:5).

Fique cada um com a sua convicção sincera, mas não condene ao irmão que interpreta as Escrituras de outra maneira. O que não convém são as acusações e recriminações descaridosas entre irmãos na fé.

Os mundanos e os fracos na fé que são os pequeninos de Cristo se escandalizam com essas contendas. Certa vez João encontrou um homem que lançava fora os demônios em nome de Jesus e proibiu-lhe de continuar com esse trabalho, porque não seguia ao Mestre com os outros discípulos.

Jesus disse que não se devia proibi-lo de trabalhar, pois estava trabalhando em nome de Jesus e estava fazendo uma boa obra. Não seguia a Jesus do mesmo modo que os doze o seguiam, mas também era discípulo de Jesus e trabalhava em prol do reino de Deus.

Por essa razão, não devia ser condenado. Ele não era contra a obra dos outros discípulos de Jesus, mas a favor dela. Leia-se esse incidente em Marcos 9: 38-42.

O ensino que Jesus tirou desse incidente é claro: não devemos condenar a outros que estão trabalhando em nome de Jesus, embora não sigam a Jesus do mesmo modo que nós o seguimos. Eles também estão trabalhando a favor de Jesus e o seu trabalho está sendo abençoado por Deus, pois estão expelindo demônios pelo poder do nome de Jesus.

A benção de Deus não repousa exclusivamente sobre uma denominação evangélica. O trabalho de todas elas tem sido ricamente abençoado por Deus.

Nenhuma denominação evangélica e nenhuma igreja não-denominacional tem o monopólio da interpretação das Escrituras ou do dom do Espírito Santo.

O Espírito Santo tem produzido milhares e milhares de conversões em todas as igrejas evangélicas, em todo o mundo, e as Escrituras Sagradas nos dizem que o Espírito Santo é dado àqueles que obedecem a Deus (Atos 5:32).

Não devemos, portanto, chamar desobedientes aqueles que, como nós, receberam o Espírito Santo e estão trabalhando em nome de Jesus.

Quando pessoas interessadas no evangelho nos perguntarem a razão das várias denominações evangélicas, devemos explicar-lhes que podem ser comparadas a uma grande família em que há vários indivíduos.

Cada qual tem os seus característicos particulares e que, no entanto, todas se orientam pela mesma regra de fé e pratica, todas obedecem ao mesmo Pai dos Céus e todas creem no mesmo poder do Espírito Santo.

Todas estão de acordo sobre as grandes verdades fundamentais da fé cristã e divergem apenas em questões secundárias, como sejam modos de administrar as ordenanças de Cristo ou de governar a sua Igreja.

Ademais, devemos explicar que a coisa principal para aquele que quer fazer a vontade de Deus é crer em Jesus Cristo como o seu Salvador e ser regenerado pelo poder do Espírito Santo.

É  muito secundária a questão do modo de representar exteriormente essa transformação radical do coração e ficando o modo dessa representação ao critério de cada consciência cristã, esclarecida pela Palavra de Deus.

Cada convertido procurará livremente àquela Igreja que estiver mais de acordo com as suas convicções religiosas, sem, todavia, condenar os outros cristãos que não pensam da mesma maneira sobre questões de ritual e governo da Igreja de Deus.

Não devemos querer ditar leis aos nossos irmãos de outras denominações evangélicas sobre questões cerimoniais ou eclesiásticas, uma vez que Jesus não estabeleceu leis sobre elas. Seja o nosso lema: "Unidade no essencial, liberdade no secundário, caridade em tudo"

É de muita necessidade que haja um entendimento entre as varias igrejas evangélicas e que trabalhem harmonicamente no serviço glorioso do seu único Chefe infalível, Jesus Cristo.

Para que haja uma real harmonia de vistas e uma eficiente cooperação entre todas as igrejas evangélicas é mister que se cultive um reconhecimento leal da sinceridade e da cultura de todas elas.

Se uma Igreja evangélica duvida da sinceridade dos membros de uma outra igreja evangélica, está claro que entre essas igrejas não pode haver uma verdadeira comunhão espiritual.

E se uma igreja julga que os membros de uma outra são ignorantes e incapazes de interpretar corretamente as Escrituras, é impossível que entre essas igrejas haja um entendimento fraternal. Para a realização do ideal da união espiritual pedida por Jesus na sua oração sacerdotal, são indispensáveis os dois pontos mencionados que passamos a desenvolver.

1 - Os vários ramos da Igreja Cristã Evangélica são essencialmente iguais na sua sinceridade e lealdade para com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não há nenhuma delas que pretenda desobedecer a Jesus. Todas elas têm boa vontade de seguir os mandamentos de Jesus, até mesmo nas coisas mais pequeninas. Às vezes os nossos irmãos imersionistas nos exortam a obedecer o mandamento de Jesus para sermos batizados, como se nós estivéssemos desobedecendo a esse mandamento.

Todavia, no nosso sincero modo de entender, já fomos batizados e já obedecemos ao mandamento de Jesus. Não estamos teimando em uma desobediência, como alguns deles entendem, mas estamos apenas seguindo as nossas convicções sinceras.

Desejamos que essas nossas convicções sejam respeitadas, como nós respeitamos as sinceras convicções dos nossos amados irmãos imersionistas. Esteja cada um convencido na sua consciência e fique cada um com a sua convicção sincera.

Para que possa existir o respeito mútuo e o espírito de fraternidade entre os cristãos de varias igrejas, é de grande conveniência que estudemos os argumentos e os pontos de vista daqueles que divergem de nós e assim compreenderemos que eles, tanto como nós, têm as suas razões em que alicerçam as suas convicções.

Embora não mudemos de parecer, poderemos, ao menos, compreender a sinceridade daqueles que não concordam conosco.

Duvidar da sinceridade dos nossos irmãos na fé de outras denominações ou indenominações é destruir a possibilidade da união espiritual que Jesus ardentemente desejou para todos os seus discípulos, afim de que o mundo cresse nele como o Enviado do Pai (João 17:21).

2 - Em todas as igrejas evangélicas existe capacidade intelectual e espiritual para interpretar as Escrituras. Em todas elas há homens cultos, iluminados pelo Espírito Santo.

Nenhuma igreja tem o monopólio da interpretação das Escrituras.

O protestantismo todo rejeita a tola pretensão do papa de ser ele o intérprete infalível da Bíblia, e, no entanto, às vezes, acontece que uma ou outra igreja evangélica pretende ser a única que tem acertado em qualquer matéria de interpretação.

Na questão do modo do batismo encontram-se abalizados intérpretes da Bíblia que pensam de modos diferentes.

A favor da imersão, como modo único de batizar, podem ser citados muitos vultos eminentes como Strong, Haldeman, Mullins, Mc Glothlin e Taylor; cristãos de indubitável cultura e sinceridade.

Contra a imersão, como o único modo de batizar, podem ser citados outros vultos eminentes, como Charles Hodge, Robinson, Davis, Mathew Henry e Othoniel Motta que também são cristãos de indubitável cultura e sinceridade.

Concluímos que, se o modo do batismo fosse, para Jesus, essencial à validez ou à integridade dessa ordenança, Ele teria dado, a esse respeito, uma ordem explicita e tão clara que nenhum cristão inteligente e bem intencionado poderia duvidar do seu sentido.

Uma vez que assim não fez, não é esse um ponto capital de obediência. Devemos permitir a liberdade de divergência na interpretação desse ponto de importância secundária.

Um dos resultados da Reforma do século dezesseis foi o estabelecimento, para o protestantismo, do princípio do livre exame das Escrituras. Era muito natural que em questões secundárias, não houvesse uniformidade na interpretação de vários textos da Bíblia.

Era mesmo de se esperar que estudantes espirituais e esclarecidos, como foram, por exemplo, Lutero, Calvino e Wesley não concordassem sobre pontos de menos importância. Dessas divergências em questões de importância secundária surgiram as denominações evangélicas.

Todavia, entre todas as confissões de fé das grandes denominações evangélicas, lia uma maravilhosa concordância quanto aos fundamentos da fé cristã. É até mesmo de se admirar que admitido o princípio do livre exame, houvesse tanta harmonia da vistas.

Somente quem desconhece a história eclesiástica poderá negar os relevantes serviços prestados na causa de Cristo pelas grandes denominações evangélicas.

Foi o luteranismo que fez a Alemanha culta e poderosa.

Foi o calvinismo que deu uma magnífica organização às igrejas reformadas e proporcionou-lhes uma sólida base intelectual para a sua fé.

Foi o wesleyanismo ou seja o metodismo, que acendeu o fogo espiritual do evangelismo na Inglaterra e salvou aquele país do ateísmo e da anarquia.

A denominação Batista muito concorreu para o estabelecimento dos princípios da liberdade religiosa e da fé pessoal em Jesus Cristo.

Todas as grandes, denominações evangélicas tiveram as suas tradições gloriosas e contribuíram cada uma com o seu quinhão, para o progresso do reino de Deus no mundo.

Negar esses fatos é fazer uma grave injustiça a esses membros do corpo de Cristo, cada um dos quais desempenha uma função especializada no reino de Cristo.

Uma das glórias do protestantismo é que permite e recomenda o livre exame das Escrituras. Não obriga a ninguém a se conformar com um só modo de pensar ou de interpretar as Escrituras, em questões secundárias.

Não é como na Igreja Romana, onde se obriga a todos a rezar por uma só cartilha. O protestantismo recomenda "a unidade no essencial, a tolerância no secundário e a caridade em tudo".

Todas as denominações evangélicas são ramos de um só tronco que é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo ou, empregando outra figura bíblica, são membros de uma só família, a família de Deus (Efésios 3:14 e 15).

Sendo assim, um irmão não deve fazer um juízo temerário de outro, condenando-o como desobediente e insubmisso à vontade de Deus, porque se batiza ou toma a Santa Ceia de modo diferente do seu.

Os males do denominacionalismo e do não-denominacionalismo que têm dividido a Igreja de Cristo aqui no mundo têm sido bastante exagerados, visto como, esses vários ramos da Igreja visível são frutos da liberdade individual empregada na interpretação das Escrituras.

Todos esses ramos do cristianismo têm prestado relevantes serviços ao reino de Cristo aqui sobre a terra, cada qual de acordo com os seus dons e característicos individuais.

Há denominações e indenominações evangélicas que atraem mais os intelectuais, e outras há que apelam mais para as pessoas emocionais e de menos cultura.

Umas adotam um culto ritualista que agrada aos apreciadores da solenidade nos cultos e outras primam pela simplicidade das formas cultuais e satisfazem as aspirações religiosas de outra classe de gente.

Umas adotam o governo congregacional, outras o episcopal e ainda outras o presbiterial. Cada uma delas pela sua interpretação sincera das Escrituras, está convencida de que o seu modo de fazer é bíblico.

Todas elas têm recebido as manifestações do poder do Espírito Santo na conversão de almas. O próprio Deus tem posto sobre a sua obra o cunho da sua aprovação. E quem somos nós para contrariar a aprovação divina?

O Exército da Salvação, por sua vez, faz um trabalho que não é feito por nenhuma denominação ou indenominação evangélica. Atinge a uma classe de gente que dificilmente se aproxima das igrejas evangélicas.

Com a sua banda de música, sua organização militar, seus cultos ruidosos e os constantes testemunhos orais dos convertidos, o Exército da Salvação atrai os decaídos no lodaçal de pecados crassos e os conduz à salvação por meio de Jesus Cristo.

Deverá o homem culto que não é atraído pelos métodos do Exército da Salvação condenar os seus processos de ganhar almas para Cristo? Certamente que não. Eles também estão lançando fora demônios em nome de Jesus.

O grande mal das denominações e indenominações evangélicas não está nas suas divergências sinceras com referência a questões secundárias, mas está no seu sectarismo que as leva a criticar e condenar umas às outras.

Irmãos em Cristo! Abandonemos esse pecado de condenar os que não andam conosco. Escutemos a voz de Jesus que nos diz:

"Não lho proibais; porque não há ninguém que faça milagre em meu nome, e logo depois possa falar mal de mim. Pois quem não é contra nós é por nós. Aquele que vos der de beber um copo d'água, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa. Mas quem puser uma pedra de tropeço no caminho de um destes pequeninos que crêem, melhor seria que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e que fosse lançado ao mar" (Marcos 9:39-42).

Respeitemos as convicções sinceras dos nossos irmãos na fé. Não os condenemos por divergirem de nós em questões secundárias.

Unamo-nos com eles para pregar a Cristo e a Cristo crucificado, deixando de lado essas questões de pouca relevância que nos dividem e, desse modo, apresentaremos uma frente única aos inimigos da Verdade e cooperaremos para que todos os crentes em Cristo sejam um nele e no Pai, como Ele mesmo pediu na sua oração sacerdotal.

Assim faremos com que o mundo creia em Jesus como o Enviado de Deus. Amém.

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