A palavra batizar na Versão dos Setenta e nos livros apócrifos do Antigo Testamento


A Versão dos Setenta
Antes da era cristã, o Velho Testamento foi traduzido do hebraico para o grego por uma comissão de uns setenta homens ilustrados, sob a direção de Ptolomeu Philadelpho.

Essa tradução ficou sendo conhecida como a "Versão dos Setenta" [ou Septuaginta]. Foi ela usada por Jesus e pelos apóstolos e é um valioso documento literário em que podemos estudar o grego da época em que viveram Jesus e os seus apóstolos.

Convém dizer, de passagem, que o grego empregado por Jesus, e pelos seus discípulos era denominado o koiné.

Não era o grego clássico, mas antes o grego do uso popular. Na "Versão dos Setenta" encontra-se a palavra baptizo somente em duas passagem; II Reis 5:14 e Isaias 21:4; e a palavra bapto, de que se deriva baptizo, encontra-se umas vinte vezes.

Referindo-se à cura de Naaman em 2 Reis 5:14, diz a "Versão dos Setenta": Desceu ele e mergulhou-se sete vezes no Rio Jordão e ficou limpo. O grego diz: batizou-se (ebaptizato) sete vezes.

Eliseu tinha ordenado a Naaman que se lavasse (lousai) sete vezes no Rio Jordão e ele, obedecendo, batizou-se sete vezes.

É bem provável que esse batismo tivesse sido por imersão, pois a palavra no original hebraico é tâbal que conforme o Léxico de Gesenius, tem o sentido de mergulhar ou imergir. É esse, sem duvida, o sentido primário da palavra.

Já tivemos ocasião de admitir que, às vezes, baptizo, tem o sentido de imergir. O que, no entanto, afirmamos e provamos é que esse vocábulo não tem sempre esse significado.

Até mesmo, nesta última passagem, não se pode provar que os sete batismos de Naaman tivessem sido feitos por imersão, embora se julgue isso provável.

Ele podia muito bem ter tomado sete banhos lavando-se completamente, sem ter mergulhado nem uma vez. Já tivemos ocasião de ver que a palavra baptizo não indica o modo do ato.

A palavra tâbal, empregada no original hebraico, não se restringe, tão pouco, ao único sentido de imergir.

Isso se prova pelas passagens em que é empregada com vários sentidos. Na "Versão Brasileira" da Bíblia encontram-se as seguintes traduções do vocábulo tâbal: tingir (Gênesis 37:31), molhar (Levítico 9:9 e Rute 2:14), banhar (Deuteronômio 33:24), submergir (Jó 9:31), ensopar (Êxodo 12:22) e mergulhar (2 Reis 8:15).

Embora seja imergir o sentido primário dessa palavra, não se pode limitá-lo exclusivamente a esse significado. É coisa rara encontrar-se em qualquer língua, uma palavra que se restrinja a um só sentido.

A outra passagem em que "Os Setenta" empregaram a palavra baptizo é Isaías 21:4. Todos os conhecedores da língua hebraica concordam que neste versículo a versão não dá corretamente o sentido do original que é "o medo me espavoreceu" ou o "terror me tem amedrontado". O grego dos "Setenta" assim reza: He anomia me baptizei, isto é: “Batizou-me ou sobrepujou-me a iniqüidade".

O que se torna patente desta tradução, embora não represente corretamente o original, é que a palavra é empregada em sentido figurado, como quando se diz, no grego clássico, que urna pessoa é batizada com vinho (um bêbado) com ópio, com divida ou com questões difíceis.

Está claro que a pessoa não é mergulhada nessas coisas, mas é, ante, sobrepujada por elas.

Em Daniel 4:25, na "Versão dos Setenta", encontramos a palavra bapto que os imersionistas extremados dizem significar somente imergir, mas o versículo a que aludimos não admite esse sentido. Nabucodonosor tinha sido muito favorecido por Deus, mas não dera glória ao seu Benfeitor.

Por isso foi castigado; Deus lhe deu um coração como o dos animais e andou comendo feno como os bois. Além disso, o seu corpo, como os corpos dos animais do campo, foi molhado pelo orvalho do céu.

O seu corpo foi batizado pelo orvalho do céu, diz o grego. Não há neste caso nenhuma imersão possível, pois o orvalho desceu sobre o corpo do rei e não foi ele metido dentro do orvalho; não houve imersão.

Com referência às outras passagens onde se emprega bapto, nos "Setenta", vamos dar a palavra ao grande teólogo dr. Charles Hodge:

"A palavra bapto, nas passagens que seguem, não tem necessariamente a idéia de completa imersão. Às vezes, a palavra significa meramente o contato ou uma imersão parcial; como em Levítico 4:17: "E o sacerdote molhará o seu dedo naquele sangue". 

Levítico 14:6: "E tomará a ave viva e o pau de cedro, e o carmesim e o hissopo, e os molhará (bapsei) com a ave viva no sangue da ave que foi degolada sobre as águas vivas". Todas essas coisas não podiam ser imersas no sangue de uma ave. 

Boaz disse a Rute na hora da refeição: "molha (bapseis) o teu bocado no vinagre" (Rute 2:14). Josué 3:15: "Os pés dos sacerdotes que levavam a arca se molharam (ebaphesan) na borda das águas". 1 Samuel 14:27: "Jônatas molhou (ebapsen) a ponta da vara que tinha na mão, no favo de mel". Salmo 68:23: "Para que o teu pé mergulhe (baphe) no sangue dos teus inimigos". 

Esses exemplos provam que a palavra bapto como é empregada nos "Setenta", mesmo quando significa mergulhar, não tem necessariamente a idéia de completa imersão" (Teologia do dr. Charles Hodge, vol. III, págs. 528 e 529).

A conclusão lógica que se pode tirar do estudo do grego da "Versão dos Setenta" é que os tradutores não limitaram o sentido de baptizo e de bapto à imersão total, como querem os defensores do batismo só por imersão.

Os livros apócrifos
Os livros apócrifos incluídos pela Igreja Romana no Velho Testamento não são, para nós, livros inspirados e, no entanto, podemos estudá-los como parte da literatura grega da época em que foram escritos. Esses livros trazem um pouco de luz para o assunto que estudamos.

A palavra baptizo encontra-se apenas duas vezes nos livros apócrifos; em Judite 12:7 e Eclesiástico 34:30. Vamos mais uma vez dar a palavra ao dr. Charles Hodge, para elucidar o primeiro versículo.

A passagem em Judite nada determina quanto à palavra. Apenas diz: "Ela se batizou no arraial numa fonte de água" (ebaptizeto en te parembole epi tes peges tou hudatos). Se for exato que baptizo sempre significa imergir, então esta passagem assevera que Judite se imergiu na fonte. 

Se for verdade, porém, como crê a grande maioria dos cristãos, que a palavra muitas vezes significa lavar, ou purificar, sem particularizar o modo de efetuar a purificação, então nenhuma prova há que a passagem afirma qualquer outra coisa mais do que o fato de Judite se ter lavado na fonte. Todas as circunstâncias do caso favorecem esta interpretação.



Conforme a narrativa, o país fora invadido por um exército imenso de assírios, sob o comando de Holofernes. A resistência parecia impossível, a completa destruição ameaçava a nação. Judite, uma linda moça rica, inflamada por um zelo patriótico e religioso, resolveu fazer uma tentativa heróica para salvar o seu povo. Com essa intenção dirigiu-se ao acampamento dos inimigos e apresentou-se a Holofernes, ricamente trajada, declarando que havia de auxiliá-lo na conquista do país. 


O general assírio, cativado pelos seus encantos, tratou-a com a maior distinção. Ela permaneceu na sua própria tenda, sem ser molestada, por três dias, mas permitiu-se-lhe que, à noite, fosse à fonte para se purificar. "No quarto dia foi convidada para um grande banquete. Holofernes bebeu excessivamente, de modo que, quando os hóspedes se retiraram, o general se achava completamente embriagado. 

Judite, auxiliada por sua criada, cortou-lhe a cabeça e levou-a ao acampamento dos seus compatriotas. Desse ato heróico, resultou a derrota dos assírios e o livramento do povo de Deus.


As circunstâncias que, no caso narrado, apoiam o argumento que Judith foi á fonte não para se imergir e sim para se abluir são:


(1) A fonte estava necessariamente dentro dos limites do arraial para o uso de um exército de imensas proporções. No entanto, um acampamento cheio de soldados não se recomenda como um lugar próprio para uma senhora se banhar, embora de noite.

(2) Diz o dr. Conant: "Claramente não faltava água suficiente para a imersão do corpo pelo modo usado entre os judeus que entravam na água até uma certa profundidade e, então, se abaixaram até que o corpo todo estivesse imerso". Entretanto, a probabilidade parece estar toda do outro lado. 

Teria de ser uma fonte extraordinária que permitisse tais imersões, por semelhante modo. Se a palavra baptizo só pode significar imergir, estas considerações nada valem, porém, se a palavra tanto significa lavar ou purificar como imergir, os argumentos aduzidos favorecem a nossa interpretação do caso. Todavia, essa passagem, por si só, nada prova”. (Teologia Sistemática do dr. Charles Hodge, Vol. III, pags. 529 e 530).


A outra passagem, nos livros apócrifos, onde se encontra a palavra baptizo, acha-se em Eclesiástico 34:30. O autor desse livro foi Jesus Sirach que escreveu na língua hebraica. O seu neto transferiu a sua residência para o Egito, mais ou menos no ano 132 A. C, e ali fez a tradução do livro, para o grego. Existe hoje somente a versão grega.

No capítulo quinto dos nossos estudos, já tivemos ocasião de comentar o aludido versículo 30 do capítulo 34 do livro de Eclesiástico que assim reza: "Se alguém se lava depois de ter tocado um morto, e o toca outra vez, de que lhe serve o ter se lavado?"

Na versão grega a expressão é esta: Baptizomenos apo nekrou, "batizado de um cadáver". O sentido é: batizado para se purificar da contaminação produzida por ter tocado em um cadáver.

Pelo estudo que fizemos do capítulo dezenove de Números, averiguamos que a purificação cerimonial de quem tivesse tocado em um cadáver era feita pela aspersão da água da purificação sobre o contaminado. A essa aspersão o neto de Jesus Sirach dá o nome de batismo. Mais este exemplo vem provar que, na literatura grega, baptizo não tem o significado exclusivo de imergir.

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