
Basta observar com atenção o cenário religioso para notar um paradoxo desconcertante: a facilidade com que diferentes grupos cristãos implicam uns com os outros e disputam espaço.
Em vez de nos unirmos em torno da mensagem central da cruz, não é raro ver congregações e fiéis gastando tempo e energia para desqualificar quem não ora, não canta ou não conduz o culto da mesma maneira.
Quando a rivalidade denominacional ganha força, o amor cristão é colocado de lado e o avanço do Reino de Deus fica em segundo plano. É nesse momento que as obras da carne começam a falar mais alto: partidarismos, dissensões e inimizades que em nada honram o Evangelho (Gálatas 5.19-23).
Jesus foi categórico ao ordenar que nos amássemos uns aos outros. No entanto, muitos preferem alimentar pequenas guerras frias institucionais, buscando motivos superficiais para apontar o dedo para o irmão ao lado.
Será que não percebemos o prejuízo espiritual disso tudo? Para a nossa reflexão conjunta, destaco algumas marcas claras da postura intolerante no meio cristão:
1. Visão bíblica distorcida e limitada sobre a igreja
O problema começa quando o crente passa a acreditar que apenas a sua denominação “é a certa”. É a clássica síndrome da videira invertida.
A pessoa passa a enxergar sua própria igreja local como o tronco principal e todas as outras congregações como meros ramos secundários — contrariando abertamente o ensino de Jesus, no qual Ele é a Videira e todos nós somos os ramos (João 15.5).
Um estudo honesto no Novo Testamento demonstra com clareza que o termo grego ekklesia aponta para o ajuntamento dos remidos tanto em nível local quanto universal. Portanto, a verdadeira Igreja de Cristo é infinitamente mais ampla do que as quatro paredes de qualquer templo institucional.
2. Imaturidade emocional e espiritual
Essa imaturidade manifesta-se em duas frentes fundamentais: nos relacionamentos humanos e na caminhada pessoal com Deus.
Um dos maiores sinais de maturidade interpessoal é justamente a capacidade de acolher, compreender e amar aqueles que pensam de maneira diferente de nós.
Já no campo espiritual, a imaturidade reflete-se em um cristianismo pálido, esvaziado de graça e aceitação, incapaz de reproduzir na prática o coração da mensagem de Cristo.
3. O contágio perigoso da intolerância
Intolerância gera intolerância, exatamente da mesma forma como a violência alimenta a própria violência. É uma postura contagiosa e destrutiva.
Daí decorre o grande perigo de darmos margem a contendas inúteis: se o batismo correto é com mais ou menos água, se determinado dom verbal está em operação no culto ou se a liturgia deve ser predominantemente barulhenta ou silenciosa.
A maior parte desses debates não nasce do desejo de edificar, mas da intenção de atacar a partir do preconceito religioso. Trata-se de um caminho estéril que não conduz a lugar algum.
Como Superar o Sectarismo Denominacional?
Para desarmar essa postura prejudicial no meio da igreja, precisamos resgatar princípios vitais:
Lembrar que denominação não salva ninguém: quem salva é unicamente Jesus Cristo. Quando os crentes assimilarem essa verdade bíblica no íntimo, rivalidades institucionais perderão completamente o sentido. No céu não haverá uma ala presbiteriana, uma praça batista ou um pavilhão pentecostal. Somos todos um só corpo em Cristo.
Compreender a diversidade legítima do Corpo: pessoas possuem personalidades, histórias e sensibilidades distintas. É perfeitamente natural que se adaptem melhor a estilos litúrgicos variados. Reconhecer e valorizar essa rica pluralidade é uma demonstração de maturidade cristã.
Reavaliar a missão primordial da Igreja: a vocação da liderança cristã jamais foi “pescar em aquário alheio” ou converter membros de outras congregações evangélicas. O propósito inegociável da Igreja é proclamar as Boas Novas de salvação àqueles que ainda não conhecem a Cristo.
"Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, procurando diligentemente guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos."
(Efésios 4.1-6)
Autor: Andrei Barros