Efeitos do pecado sobre a vida do homem


Lucas 19.41-44

Certo teólogo pronunciou a seguinte frase: “Não há nada que o descrente possa fazer que o torne verdadeiramente bom”. Essa frase está diretamente relacionada com a condição de pecadores de todos os homens. A Confissão de fé de Westminster (CFW) declara que por causa do pecado, “ficamos totalmente indispostos, incapazes e adversos a todo bem e inteiramente inclinados a todo mal ”(6.4).


O que este teólogo disse, acompanhado pelo que a CFW declara diz respeito aos efeitos do pecado na vida do homem. E isso é mencionado em toda a Escritura. Obviamente, o Evangelho de Lucas não deixa de falar sobre o assunto. Este assunto é tratado mesmo numa obra que foi fruto de uma intensa pesquisa histórica e tinha como objetivo principal fazer com que Teófilo soubesse quem era Jesus Cristo.

Dois destes efeitos são exibidos pelo evangelista na passagem em relata o choro de Jesus por causa da condição espiritual de Jerusalém. Cidade essa que foi escolhida para ser o lugar de Deus na terra. Lugar esse que foi chamado nos salmos de alegria de toda a terra (Sl 48.2,12-14; 137.6). Mas, tempos de Jesus, a condição espiritual dos habitantes de Jerusalém era de desolação.

Muito embora uma grande multidão tivesse aclamado a Cristo como Messias (v. 38), poucos realmente o haviam reconhecido como tal. Nesse relato Jesus chora porque seus olhos podiam contemplar uma cidade que estava erguida, mas também podiam contemplar aquilo que estava por vir. Ou seja, a ira de Deus, o juízo, a condenação e a morte.

Mas se afirmamos que esse relato exibe os efeitos do pecado sobre a vida do homem, que efeitos são esses que se fazem presente no texto? 

Vejamos:

1. Ausência de conhecimento sobre a separação (v.42). 
“Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos."

Apesar da religiosidade, aquelas pessoas não podiam perceber a condição de pecado e corrupção na qual estavam. Ainda que os religiosos falassem da Lei, que proferissem o nome de Deus, eles desconheciam o fato de que, na verdade, estavam separados de Deus.

De acordo com Jesus, eles não reconheciam aquilo que era necessário para se obter a paz. Tal coisa estava oculta aos seus olhos. O sentido de paz aqui é amplo: Significa ausência de devastação, harmonia entre pessoas, segurança, felicidade. No entanto, esse amplo significado de paz não é possível ser desfrutado estando separado de Deus. Isso porque é do Senhor provêm todas estas coisas.

Aqueles homens entediam que o zelo religioso era suficiente para conduzi-los a Deus. Por isso, buscavam a aceitação de Deus por meio de seus próprios méritos, porém desconheciam o sentido das palavras do profeta Isaías: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça“ (Is 59.2).

Finalmente, eles não conseguiam compreender que Jesus era o meio através do qual poderiam obter a paz. Cristo era o instrumento de Deus para reaproxima-los de Deus. E o resultado para essa falta de reconhecimento seria juízo descrito no v.43. Por um lado, isso já se cumpriu com a destruição de Jerusalém anos mais tarde sob a liderança de Tito. Por outro, esse versículo fala do juízo do Senhor por ocasião da segunda volta de Cristo.

Portanto, o texto trata de um dos efeitos do pecado na vida do homem. Isto é, falta ao pecador a compreensão de que ele está separado de Deus. Por mais que ele se esforce, nada poderá comprar a simpatia de Deus; nada do que ele faça poderá seduzir o Senhor.

 Ele está naturalmente em rebeldia contra Deus. Paulo relata isso reproduzindo a fala desesperada de alguém que se esforça para seguir a lei de Deus, mas se depara com seu fracasso. Assim ele escreveu: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Desventurado homem que sou!” (Rm 7.19,24).

Diante desse quadro caótico, qual é a saída para o homem? A Bíblia nos aponta, pelo menos dois:

1º. Através do convencimento do Espírito Santo. Em outras palavras, através da atuação do Espírito no interior do homem de tal modo que ele perceba que está separado de Deus. Jesus nos fala sobre este modo de agir através das seguintes palavras: “Quando ele (O Espírito Santo) vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8).

2º. É necessário que o homem reconheça que ele nasceu em pecado, portanto está separado de Deus. O salmista deixa bem claro este princípio através das seguintes palavras: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe ” (Sl 51.5).

É necessário que creia que Cristo é meio através do qual Deus oferece ao homem a reconciliação. Por isso Paulo declarou: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões” (1 Cor 5.18,19).

2. Ausência do conhecimento sobre a provisão (v. 44). E te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação.

O v. 44 é a sequência da idéia expressa no v. anterior. Ou seja, por conta do reconhecimento de Cristo como o Ungido de Deus, o juízo de Deus viria.

Nesta sequencia de raciocínio Jesus expõe outro problema gerado pelo pecado. O homem é, naturalmente, incapaz de reconhecer que Deus é seu provedor. Aquelas pessoas não reconheceram que a compaixão de Deus havia “visitado” a cada uma delas enviando seu Filho.

Naquele contexto, aqueles homens, apesar de terem conhecimento das Escrituras, não puderam reconhecer que em Jesus se cumpria todas as promessas do AT acerca do Messias. A visão da maioria das pessoas era que o Messias esperado seria um libertador político.

Aquele que libertaria Israel do Império Romano e que reconduziria o povo à mesma prosperidade da época do Rei Davi. Não puderam entender que a libertação efetuada pelo Messias seria uma libertação espiritual.

Está claro, portanto, que o ensino de Jesus demonstra que o homem, via de regra, não consegue enxergar que Cristo é o enviado daquele que criou todas as coisas, tanto visíveis, quanto invisíveis. Que não consegue reconhecer que Cristo é meio através do qual Deus oferece salvação.

Por conta disso, a exemplo daquelas pessoas, buscam a aceitação de Deus por meio da caridade, da religiosidade. Enfim, procuram a alimentar falsas esperanças com instrumentos ineficazes. Diante disso, ficam algumas lições para aqueles que procedem desta forma:

1ª. Pare de confiar em si mesmo. O homem é imperfeito, logo, suas obras, igualmente serão imperfeitas. Lutero certa vez disse: “Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador é meu sobrenome”.

Sendo assim, não há nada que ele faça satisfará plenamente ao Senhor. Deus somente se satisfaz em Cristo. Sobre isso anunciou o profeta Isaías: “Ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado” (Is 53.10).

2ª. Confie sua salvação somente a Cristo. Pare de buscar meios para sua salvação. Sua salvação não é obtida por meio do que você faz, mas por meio daquilo que Cristo fez na cruz do Calvário. Entenda que Deus providenciou a sua salvação através de Cristo.

Por isso mesmo João declarou: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Paulo ensina a mesma mensagem com as seguintes palavras: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1)

A seguir, ele acrescenta: Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. (Rm 8.34).

Conclusão
O pecado gerou graves consequências ao homem, principalmente na sua relação com Deus. De acordo com Lc 19.41-44 duas destas consequências são: 1ª. O homem não pode entender que está separado Deus. 2ª O homem não consegue enxergar que Deus é o seu provedor. 

Que a graça de Deus desvende os olhos daqueles que estão nesta condição de tal modo que reconheça Cristo como o Senhor e como o seu suficiente Salvador.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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