Os vários batismos do Antigo Testamento e o batismo de João


Entre as ordenanças da carne impostas na velha dispensação, até o tempo da reforma da nova aliança, o autor da Carta aos Hebreus menciona vários batismos (Hebreus 9:10) que a Versão Brasileira do Novo Testamento traduz por várias abluções.

Esses batismos estão incluídos na lista das cerimônias do Velho Testamento que deviam desaparecer por se terem tornado antiquadas. E como eram feitos esses vários batismos do Velho Testamento?

No mesmo capitulo 9 e versículo 13 da Carta aos Hebreus encontramos a indicação de que um desses batismos era feito por aspersão e depara-se com a confirmação disso no Velho Testamento, no capitulo 19 de Números.

Diz o autor da Carta aos Hebreus: "Se o sangue de bodes e de touros e as cinzas de uma novilha aspergidas sobre os contaminados, santifica-os para a purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo que pelo Espírito eterno se ofereceu sem defeito a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo" (Hebreus 9:13, 14).

A expressão cinzas de uma novilha aspergidas sobre os contaminados se refere à água da purificação usada para aspergir os contaminados por um cadáver. A descrição da purificação desses contaminados encontra-se no capitulo 19 de Números.

Em primeiro lugar, o sacerdote devia matar uma novilha vermelha em que não houvesse defeito algum e que não tivesse levado o jugo. Essa novilha devia ser queimada com todas as partes.

No mesmo fogo em que se queimava a novilha, devia-se lançar pau de cedro, hissopo e escarlata. A cinza resultante da queima devia ser guardada, para com ela se preparar a água da purificação.

A preparação da água da purificação era feita do seguinte modo; derramava-se água viva (corrente) sobre uma quantidade das cinzas que haviam sido colocadas em uma vasilha. Essa água devia então ser aspergida sobre a pessoa imunda.

A pessoa devia lavar também as vestes e o corpo todo, mas o ato de purificação não consistia no banho e sim no aspergimento com a água da purificação. Esse ato de purificação feito por aspersão é um dos vários batismos de Hebreus 9:10, pois, vem especificado no versículo 13.

Ainda no mesmo capitulo 9 da Carta aos Hebreus são mencionadas outras purificações cerimoniais do Velho Testamento feitas por Moisés, pela aspersão de água e sangue.

"Quando Moisés havia falado a todo o povo todos os mandamentos segundo a lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água e lã tinta de escarlate e hissopo, e aspergiu não só o próprio livro como também a todo o povo, dizendo: Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para vós. Também da mesma, maneira aspergiu o tabernáculo e todos os vasos do serviço sagrado" (Hebreus 9:19-21).


Essas purificações feitas por Moisés devem estar incluídas nos vários batismos do versículo décimo.

A purificação cerimonial dos levitas era feita pelo aspergimento de água, como se lê em Números 8:7:

"Assim lhes farás para os purificar; asperge sobre eles a água da expiação, e eles façam passar uma navalha sobre toda a sua carne, lavem os seus vestidos e purifiquem-se a se mesmos".


Esta aí um exemplo claro de uma purificação cerimonial feita pela aspersão de água.

A purificação cerimonial de um leproso curado era feita pela aspersão de sangue misturado com água.

"E que se mate uma das aves num vaso de barro sobre águas vivas. Quanto à ave viva, tomá-la-á, e o pau de cedro, e a escarlata e o hissopo e os molhará juntamente com a água viva no sangue da ave que for morta sobre as águas vivas. Aspergirá sete vezes sobre aquele que se há de purificar da lepra, e declará-lo-á limpo, e soltará a ave viva sobre a face do campo" (Levítico 14:5-7).


É este mais um caso de uma purificação cerimonial feita por aspersão.

Os vários batismos de Hebreus 9:10 não podiam ser imersões, porque não há purificações feitas por imersão no Velho Testamento. A expressão vários batismos deve, pois, se referir às purificações do Velho Testamento que geralmente se faziam por aspersão.

É verdade que não raras vezes um banho de todo o corpo acompanhava os atos de purificação por aspersão, mas não era uma parte integral dessa purificação e não se pode provar que tivesse sido uma imersão.

Parece que se tratava de um banho para limpar o corpo e não para purificá-lo cerimonialmente. Em vista disso, podia ser feito de qualquer modo, contanto que resultasse na limpeza do corpo.

E, no entanto, havia também algumas purificações que se faziam banhando o corpo todo, como se vê pela leitura do capitulo 15 de Levítico.

A Escritura não diz de que modo eram tomados esses banhos. É possível que fossem imersões. Parece que o modo de tomá-los não era essencial, porque não se especifica o modo.

Em todo o caso, mesmo quando fossem imersões, podiam ser incluídos nos vários batismos, juntamente com os outros ritos de purificação feitos por aspersão. É provável que o banho seja prescrito, neste capitulo 15 de Levítico porque se trata de imundícies que necessitam tanto de uma purificação física como cerimonial.

O que ressalta dos fatos exarados é que os hebreus faziam a maior parte das suas purificações por aspersão e não por imersão.

Não há um caso sequer de purificação em que se possa provar que a imersão fosse exigida.

Os vários batismos a que alude a Carta aos Hebreus incluíam, portanto, diversos ritos praticados por aspersão. As evidencias disso são tão convincentes que até mesmo o erudito helenista Thayer, que define batismo como imersão, e é por isso muito citado pelos imersionistas, admite que os vários batismos de Hebreus 9:10 não eram tão somente imersões.

No livro apócrifo de Eclesiástico encontra-se uma interessante confirmação de como os judeus consideravam ser um batismo a aspersão da água da purificação.

O versículo que traz essa confirmação é o seguinte: "Se alguém se lava depois de ter tocado um morto, e o toca outra vez, de que lhe serve o ter-se lavado?" (Eclesiástico 34:30). Na versão grega a expressão é esta: Baptizomenos apo nekrou, "batizado de um cadáver".

O sentido é: batizado para se purificar dá contaminação produzida por se ter tocado em um cadáver. Percebe-se claramente que a purificação da contaminação de um cadáver feita por espargimento é considerada um batismo neste versículo do livro de Eclesiástico.

É fato significativo que os batismos cerimoniais do Velho Testamento eram feitos com água e com sangue, mas os do Novo são feitos somente com água. O sangue no Velho Testamento era típico do sangue de Cristo que havia de ser derramado para a remissão de pecados.

O cordeiro pascal, cujo sangue fora aspergido nas ombreiras e vergas das portas dos israelitas, na noite memorável da sua libertação do cativeiro do Egito, era tipo do Cordeiro de Deus que havia de tirar o pecado do mundo.

Sendo assim que Jesus derramou o seu sangue na cruz do Calvário, não havia mais necessidade de se derramar o sangue de animais. O tipo desapareceu com o advento da gloriosa realidade.

Ademais, o sangue de Cristo, na nova dispensação, é representado pelo vinho da santa ceia e o pão é símbolo do seu corpo.

Desapareceu, portanto, a necessidade de qualquer outro símbolo para representar a sua morte expiratória. Perdura, no entanto, a água, no Novo Testamento, como símbolo da purificação efetuada pelo poder de Deus. No Novo Testamento temos o batismo cristão com água, mas desapareceram todos os batismos cerimoniais com sangue.

O estudo dos batismos do Velho Testamento derrama muita luz não somente sobre as ordenanças do Novo Testamento, mas também esclarece o sentido de algumas passagens de difícil interpretação. Veem ao caso as palavras de João na sua primeira carta, capitulo 5 e versículos o a 8:

"Este é Jesus Cristo que veio por meio de água e sangue; não só com a água, mas com a água e com o sangue; e o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade. Pois três são os que dão testemunho, o Espírito, a água e o sangue, e estes três concordam".
À luz dos nossos estudos, que interpretação devemos dar a esta passagem?

Jesus veio por meio de água e sangue, porque, quando foi traspassado pela lança do soldado romano, do seu lado correram água e sangue (João 19:34), mas, desde o Velho Testamento, a água e o sangue eram tipos ou símbolos de alguma coisa e eram, no dizer bíblico, sombras das coisas vindouras.

A água representava a purificação efetuada pelo poder de Deus e o sangue representava o meio de que Deus se serviria para efetuar a remissão dos pecados. "Segundo a lei quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não há remissão" (Hebreus 9:22).

Jesus veio com aquilo que a água e o sangue representavam, pois veio cheio do poder purificador do Espírito Santo de Deus (Lucas 3:16, 17) e também com sangue expiatório, sendo Ele o Cordeiro de Deus que havia de tirar o pecado do mundo (João 1:29).

As três testemunhas da nossa salvação são o Espírito, a água e o sangue. O Espírito Santo é o Agente divino que aplica ao homem a redenção adquirida por Cristo.

A água representa o resultado da ação do Espírito Santo, isto é a purificação por Ele efetuada no coração do homem. E, em terceiro lugar, o sangue representa o sacrifício expiatório de Cristo, ou seja, o meio que Deus empregou para conseguir a nossa salvação.

O Espírito Santo é o Agente divino que testifica do poder de Deus para salvar, a água testifica do resultado obtido na regeneração do pecador, e o sangue testifica da morte expiatória de Jesus que é o meio eficaz que Deus empregou para conseguir a nossa redenção.

Há uma admirável concordância entre estas três testemunhas; "três são os que dão testemunho e estes três concordam".

Antes de passarmos a considerar o batismo de João, é de conveniência notar que as purificações dos judeus eram feitas com água viva, isto é, com água corrente (Levítico 14:5, 6, 51, 52; 15:13; Números 19:17).

Quando não encontravam água em movimento, punham-na em movimento derramando-a ou aspergindo-a com força.

Para os rabis, "água parada representa a morte e a corrupção, e a água em movimento a vida e as influencias vivificantes do Espírito de Deus'* (Palavras de um rabi citadas por Fairfield nas suas "Cartas sobre o Batismo").

Quando João Batista começou a pregar e a batizar no deserto, não tinha para si outro modelo do modo do batismo senão aquele dos vários batismos judaicos do Velho Testamento que, geralmente, se faziam por aspersão, e, no Rio Jordão, encontrou aquelas águas vivas necessárias para a administração própria do rito do batismo.

Tendo diante de si esses exemplos do modo de batizar praticado geralmente pelos judeus, seria muito natural que o Batista adotasse o mesmo modo. Deus mandou que ele batizasse. O modo de batizar dos judeus não era imergir e sim aspergir ou derramar.

Está claro, portanto, que para João, judeu e conhecedor da lei mosaica, batizar não era imergir, mas aspergir ou derramar. Em obediência ao mandamento de Deus para batizar, deveria ter seguido o modelo da lei de Moisés.

As gravuras mais antigas do batismo de Jesus representam-no como uma afusão e não imersão. Em uma dessas representações, da Igreja de Cosmedin de Ravena, edificada no ano 401, Jesus está em pé dentro do Rio Jordão, e o Batista, sobre uma pedra à margem do rio, servindo-se de uma concha, derrama água sobre a cabeça do Salvador.

Existem ainda algumas outras gravuras antigas do batismo de Jesus e todas elas concordam com aquela de Ravena quanto ao modo do batismo.

Damos, em seguida, a palavra ao eminente mestre prof. Othoniel Motta:

"Que esta última (afusão sobre a cabeça), foi a forma dominante, provam-no as gravuras mais antigas, entre as quais não existe um sequer que procure figurar o batismo por imersão total.

Não vamos aqui discutir se a Igreja primitiva errou com esse costume; seria entrar em discussões teológicas, e o nosso intuito, já o dissemos, é lingüístico, histórico, arqueológico. Narramos fatos e eles se impõem com uma evidência incontrastável.

Quanto mais antigas tanto mais eloqüentes são em seu testemunho as gravuras que nos legaram os singelos artistas da cristandade. A água é exígua; não passa às vezes do tornozelo.

O ministrante quase invariavelmente se acha em seco. Só vimos uma gravura em que parece que ele tem os pés dentro da água". (Das anotações do prof. Othoniel Motta ao Evangelho de Matheus).

Há ainda uma outra grave dificuldade para o batismo de João ter sido por imersão. O seu ministério podia ter durado uns dezoito meses e nesse período de tempo "saíram a ter com ele toda a terra da Judéia e todos os moradores de Jerusalém e eram por ele batizados no Jordão, confessando os seus pecados (Marcos 1:5).

Mateus, faz uma afirmação quase idêntica (Mateus 3:5 e 6). A linguagem desses escritores sagrados dá a entender que o movimento foi nacional. Os judeus em massa submetiam-se ao batismo de João.

Suponhamos que somente um milhão de judeus tivessem sido batizados por ele, e que durante um ano todo ele nada fizesse senão batizar, a proporção para cada dia seria de mais de 2.700 pessoas.

Nenhuma criatura humana poderia ter imergido nem a quarta parte desse número durante sete dias consecutivos. E nem mesmo poderia um homem viver mês após mês dentro d'água até a cintura" (Fairchild on Baptism, pag. 54).

Se João tivesse empregado um molho de hissopo molhado em água, para com ele aspergir o povo, à moda dos batismos do Velho Testamento (Números 19:18; Êxodo 12:22; Levítico 14:6,7), esse processo tornaria praticável o trabalho de batizar as imensas multidões que o procuravam.

De tudo quanto acaba de ser exarado, conclui-se que o batismo de João não podia ter sido administrado por imersão.

Os apologistas da imersão, como o único modo bíblico de batizar, costumam alegar que João Batista devia ter batizado por imersão, porque procurou a Enon, por haver ali "muitas águas". A abundância de águas é para eles uma prova de imersão.

Em primeiro lugar, notamos que, se muitas águas são necessárias para imergir muita gente, então no dia de Pentecostes, caso os batismos tivessem sido por imersão, teria sido necessário que os apóstolos procurassem muitas águas, pois nesse dia foram batizadas três mil pessoas, na cidade de Jerusalém, onde a água era notoriamente escassa.

Mas, no dia de Pentecostes, os apóstolos não procuraram as águas do Jordão e, nem tão pouco, um lugar de muitas águas.

Havia sido profetizado que João Batista havia de clamar no deserto. E de fato, fez as suas pregações no deserto da Judéia. Uma vez que vinham a João grandes multidões de gente, não poderia recebê-las em lugares onde houvesse pouca água.

Mesmo quando não tivesse feito nenhum batismo, ele teria de afastar-se das partes secas do deserto e teria de procurar água abundante para suprir as necessidades físicas das multidões que o procuravam.

Todo o mundo sabe que os grandes acampamentos de gente necessitam de água abundante para o seu abastecimento. É essa uma explicação natural do fato de ter João procurado lugares de abundância de água para o desempenho da sua missão de precursor do Messias.

A procura de água abundante não necessita de imersões para explicá-la. Ademais; a expressão "muitas águas" indica mais uma porção de fontes de água, como as que havia em Enon, do que uma água profunda apropriada para imersões.

Os imersionistas insistem que Jesus foi batizado por imersão, porque saiu da água quando foi batizado. A tradução literal do texto grego é: E tendo sido batizado Jesus, imediatamente subiu da água (Mateus 3:16).

Mas nessa expressão não vai nenhuma prova de imersão. Um animal entra na água de um rio, bebe, e depois sai da água, mas não houve nenhum mergulho. O entrar na água e sair dela, não é prova de imersão.

Das narrativas do batismo de Jesus em Mateus 3:16 e Marcos 1:10, percebe-se que o sair da água foi um ato praticado por Jesus e não pelo Batista.

Não se diz que o Batista tirou Nosso Senhor Jesus Cristo de dentro da água como teria de fazer, se o batismo tivesse sido por imersão, mas foi o próprio Jesus que subiu da água, logo após o seu batismo realizado por João.

O sair da água, portanto, não foi uma parte do batismo efetuado por João, mas um ato espontâneo praticado por Jesus, logo depois do seu batismo. Já se vê, que o sair da água não sendo uma parte do batismo, nada pode provar com referência ao modo do ato do batismo.

Há quem julgue que a expressão: "João batizou no Jordão”, seja uma prova de imersão. No entanto, também se lê que João "veio batizando no deserto" (Marcos 1:4, veja-se o grego). Ninguém julgará que esta última expressão signifique que João mergulhou o povo na areia do deserto.

Só mesmo quem tem a idéia fixa de que batizar é somente imergir poderá julgar que "batizar no Jordão" não poderá ter outro sentido senão mergulhar no Jordão.

Não há nada na linguagem dos escritores sagrados que indique ter sido feito o batismo de Jesus por imersão.

É muito mais provável que tenha sido feito por afusão ou aspersão, como indicam as mais antigas representações desse ato.

Estaria isso, também de acordo com os batismos cerimoniais de purificação dos judeus que geralmente eram feitos por aspersão, como já tivemos ocasião de verificar.

Ainda mais um versículo nos faz crer que o batismo de João foi por derramamento ou aspersão; é Mateus 3:11.

Fala o grande precursor de Jesus: “Eu, na verdade, vos batizo com água para o arrependimento; mas aquele que há de vir depois de mim, é mais poderoso do que eu, e não sou digno de levar-lhe as sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo".

Ora, sabemos que, quando Jesus batizou com o Espírito Santo, Ele o derramou (Atos 2:33) e também sabemos que as línguas de fogo repousaram sobre os discípulos.

Cumpriu-se o que o Batista havia vaticinado. Se o batismo com o Espírito Santo e com fogo foi um derramamento ou um repousar sobre, porque não o seria igualmente o batismo com água administrado por João?

Resumindo; as nossas razões para crer que o batismo de João foi por aspersão ou derramamento são as seguintes:

1 - O modelo que João encontrou nos vários batismos do Velho Testamento era de aspersão ou derramamento. Ele devia ter seguido esse modelo.

2 - As gravuras mais antigas do batismo administrado por João representam-no como um derramar de água sobre a cabeça do batizando.

3 - As forças físicas de João não teriam sido suficientes para batizar por imersão, no curto espaço do seu ministério, as imensas multidões que o procuraram e por ele foram batizadas.

4 - A comparação que João faz do seu batismo com o de Jesus favorece o derramamento como o modo empregado, visto como, o batismo com o Espírito Santo, feito por Jesus, foi um derramamento. Não há motivo para supor que houvesse diferença no modo dos dois batismos.

Tecnologia do Blogger.