Os batismos do eunuco, de Cornélio e do carcereiro de Filipos



O batismo do Eunuco
Os irmãos imersionistas afirmam que o batismo do eunuco, narrado em Atos 8:38 e 39, constitui um caso incontestável de imersão, porque, no dizer deles, as preposições gregas empregadas nesse passo por Lucas indicam que Felipe e o eunuco entraram na água e saíram dela, e, no entretanto, o que diz o texto original é que "desceram ambos à água" (katebesan amphoteroi eis to hudor), e "subiram da água" (anebesan ek tou hudatos), como a Versão Brasileira muito bem traduz o grego.

A preposição grega eis empregada por Lucas, quando diz que "desceram ambos à água" não é prova de terem entrado na água, visto como, Lucas e outros escritores do Novo Testamento empregam muitas vezes essa preposição, com verbos de movimento, sem que o seu sentido exija uma intromissão em ou um meter dentro de. Vejamos alguns exemplos.

Em Atos 16:16, Lucas emprega a seguinte expressão: "Enquanto íamos ao (eis) lugar de oração". Isso não quer dizer que se meteram dentro do lugar de oração, mas somente que foram até lá.

Em Lucas 8:26, lemos: "Aportaram à (eis) terra dos gerasenos". Mais uma vez o sentido é que chegaram até a terra dos gerasenos.

Em João 7:8, lemos a seguinte expressão de Jesus: "Subi vós à (eis) festa. O sentido não é subi para dentro da festa.

Em Lucas 8:23, encontramos a seguinte frase: "Desceu uma tempestade de vento sobre (eis) o lago". Neste caso, ninguém afirmaria que a tempestade se mergulhou no lago. A preposição eis nem sempre exige o sentido de para dentro de.

No mesmo capitulo 8 dos Atos, Lucas emprega varias vezes a preposição eis, sem que o sentido exija uma introdução dentro de. "Felipe descendo à (eis) cidade de Samaria, proclamava-lhes Cristo" (vs. 5). "Voltaram para (eis) Jerusalém" (vs. 25). "O caminho que desce de Jerusalém à (eis) Gaza" (vs. 26). Desses exemplos, percebe-se claramente que a preposição eis nem sempre requer o sentido de introduzir dentro de.

O eunuco podia muito bem ter chegado à água, sem entrar nela. A preposição grega não exige a sua entrada nela. Na Didaquê há, até mesmo, um emprego muito interessante de eis, com referência ao batismo, que vem ao caso. "Se não tens nem um nem outro, derrama água sobre (eis) a cabeça três vezes, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" – Didaquê, cap. VII, parágrafo 3.

Ninguém que conhece o grego havia de dizer que se devia ler esse trecho assim: "Derrama água dentro da cabeça três vezes".

Por semelhante modo, a preposição ek não exige uma saída de dentro de, como querem os imersionistas. "Subiram da água" não implica que estiveram dentro da água, mas somente que subiram da beirada da água. Em Atos 27:34; Paulo diz aos companheiros de viagem: "Nenhum de vós perderá um só cabelo da (ek) cabeça". Neste caso, não se pode dizer: "de dentro da cabeça".

Em Marcos 16:3, as mulheres que iam ao túmulo de Jesus perguntaram: "Quem nos há de remover a pedra da (ek) entrada do túmulo?" Estes exemplos mostram que ek nem sempre tem o sentido de de dentro de.

Quando os escritores gregos queriam dar a idéia de movimento para dentro de ou para fora de, geralmente repetiam a preposição, colocando uma delas junto ao verbo.

Temos abundantes exemplos disso na literatura grega. Em Atos 21:28, lemos a seguinte expressão: "Introduziu gregos no templo" (Ellenas eisegagen eis to ieron). A idéia de introduzir dentro de se expressa com a repetição da preposição eis, mas, no caso do batismo do eunuco, não há nenhuma repetição da preposição.

É bem provável, portanto, que, se Lucas tivesse tido a intenção de dizer que o eunuco desceu para dentro da água, teria empregado o verbo eiskartabaino, mais a preposição eis. Nesse caso, sim, estaria provado que o eunuco, entrou na água, mas isso ainda não seria prova de mergulho, pois é possível entrar na água sem mergulhar.

Quando os escritores gregos queriam dar com precisão a idéia de um movimento de dentro para fora, repetiam a preposição ek. Temos um exemplo disso em Atos 7:3: Deus disse a Abrahão: "Sai da tua terra (exelthe ek tes ges sou). Como se vê o ek é repetido e assim teria de ser, se Lucas quisesse nos dizer, com precisão, que o eunuco saiu de dentro da água, mas ele não repetiu a preposição.

Do exposto, parece muito provável que Felipe e o eunuco não tenham entrado na água. A narrativa diz que chegaram a um lugar onde havia alguma água (ti hudor). Essa expressão não indica abundância de água.

Estavam no caminho que desce de Jerusalém a Gaza e "este se achava deserto" - Era uma região um tanto árida.

O eunuco pede o batismo. Descem ambos à água que encontram à beira da estrada. Não se diz que entraram na água.

Parece-nos que ali mesmo, junto àquela água, o eunuco ajoelhado ou em pé, recebeu das mãos de Felipe as águas batismais que este havia apanhado de um córrego ou de uma poça que haviam encontrado à beira da estrada.

Logo em seguida subiram da água. Felipe desapareceu e o eunuco continuou à sua viagem regozijando-se no Senhor.

Com referência ao batismo do eunuco por Felipe, acabamos de verificar que não há nada na linguagem de Lucas, e nem mesmo no seu emprego das preposições eis e ek que exija um entrar e sair da água.

Todavia, é possível que tenham entrado na água, tanto Felipe como o eunuco, mas, mesmo assim, não haveria nisso nenhuma prova de imersão. Podiam os dois ter permanecido em pé dentro da água, enquanto se realizasse o batismo por afusão.

A linguagem de Lucas torna bem patente o fato que o descer à água e o subir da água foram atos bem distintos do batismo. "Desceram ambos à água, Felipe e o eunuco, e Felipe batizou-o. Quando subiram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Felipe" (Atos 8:38 e 39).

Percebe-se, pela simples leitura do trecho citado, que o batismo foi realizado logo após o terem descido à água e não enquanto estavam descendo. E quando o batismo já estava completado,então, subiram da água.

Não se diz ter sido Felipe que tirou o eunuco da água, como se faz nas imersões, mas o eunuco subiu da água, junto com Felipe. Foram praticados atos distintos: (1) a descida de ambos à água, (2) o batismo do eunuco por Felipe e (3) a subida de ambos da água.

Uma vez que esses três Atos foram separados e distintos, nada provam o primeiro e o terceiro, com referência ao modo do segundo, sendo este um ato, independente dos outros dois.

O descer e o subir portanto, nada provam com referência ao modo do batismo. E mesmo quando se admitisse que Felipe e o eunuco estivessem dentro da água, quando se realizou o batismo, o descer e o subir nada provariam com relação ao modo do ato batismal. Podia ter sido feito por aspersão ou por afusão.

Agora, se os imersionistas querem que o descer à água, seja equivalente a mergulhar na água, responderemos que, nesse caso, Felipe também foi mergulhado, pois a narrativa diz que ambos desceram à água.

Se o descer à água prova mergulho, então, Felipe foi mergulhado, mas esse absurdo não é admitido nem mesmo pelos imersionistas mais intransigentes.

Por semelhante modo, se o subir da água prova que houve imersão para o eunuco, prova a mesma cousa com referência a Felipe. Concluímos, portanto, que o descer e o subir da água não provam imersão.

Se Felipe e o eunuco de fato entraram na água, é razoável supor que ficaram em pé, como Paulo ficou, quando foi batizado, enquanto Felipe derramou água sobre a cabeça do recém convertido, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Com esse ponto de vista concordam os outros batismos do Novo Testamento que temos estudado e também o testemunho das mais antigas representações do batismo de Jesus que o exibem em pé, no Rio Jordão, enquanto o Batista derrama-lhe água sobre a cabeça.

O batismo de Cornélio
As circunstâncias do batismo do centurião Cornélio são todas favoráveis à afusão, como passamos a demonstrar.

A história desse batismo do primeiro gentio convertido ao cristianismo é narrada em Atos 10:44-48. No versículo 47, encontra-se a seguinte expressão significativa: "Pode alguém negar a água para que não sejam batizados estes, que receberam o Espírito Santo como nós?"

A palavra negar no grego é kolusai e também se traduz por impedir, proibir, recusar ou vedar. A expressão negar a água dá a entender que a água devia ser trazida e que ninguém devia impedir esse ato.

Não há nenhum indício na narrativa de que Cornélio e os seus parentes e amigos tivessem saído da sala onde estavam e que tivessem descido ao mar para serem imersos.

Quando Jesus chamou a si os meninos, disse: "Deixai vir a mim os meninos e não os impeçais" (Lucas 18:16). Para dizer não os impeçais, Jesus empregou o mesmo verbo koluo de que Lucas se serviu em Atos 10:47. Jesus não queria que impedissem às crianças de se chegarem a Ele.

Assim, também, no caso de Cornélio, Pedro não queria que impedissem o trazer de água para batizar a Cornélio e os amigos reunidos na sua casa. Parece-nos ser esse o modo mais natural e razoável de interpretar esse passo.

O argumento de Pedro é bem claro: Pode alguém impedir a água para que estes que já receberam o Espírito Santo não sejam batizados? Se já receberam a realidade, não se pode negar-lhes o símbolo dessa realidade: devem ser batizados com água.

E de que modo receberam o Espírito Santo? Duas vezes Pedro diz que desceu sobre eles o Espírito Santo. (Atos 10:44 e 11:15). Seria, pois, muito natural que descesse sobre eles a água do batismo para simbolizar a descida do Espírito Santo.

Já tivemos ocasião de ver que as Escrituras se referem muitas vezes ao derramamento do Espírito Santo e não à imersão nele.

É, portanto, muito apropriado que as águas do batismo, representativas do derramamento do Espírito Santo, sejam também derramadas sobre os recipientes dessa grande benção espiritual.

Em Atos 11:1-18, Pedro explica e defende a sua ação com referência a Cornélio e diz:

"Começando eu a falar, desceu o Espírito Santo sobre eles como no principio descera também sobre nós. Lembrei-me da palavra do Senhor, como disse: João na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo. 

Pois se Deus lhes deu o mesmo dom que dera também a nós, quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?"

Pedro sentiu que não poderia deixar de batizar com água aqueles que haviam sido batizados por Jesus com o Espírito Santo.

Da explicação feita por Pedro, torna-se claro que mandou batizar a Cornélio e aos seus, com água, porque sobre eles fora derramado o Espírito Santo, como acontecera com os discípulos no dia de Pentecostes.

A água do batismo devia simbolizar o derramamento do Espírito Santo e por isso, se faria, muito naturalmente, por afusão.

Todas as circunstancias, portanto, favorecem o batismo por afusão e são contrarias ao batismo por imersão.

Em resumo: é muitíssimo improvável que Cornélio e os seus tenham sido batizados por imersão, pelos seguintes motivos:

1 - Não há, na narrativa, nenhum indício de que tenham saído da sala onde estavam reunidos, para procurar água suficientemente funda para praticar imersões.

2 – Há, no entanto, um indício de que a água foi trazida para a sala, visto como, Pedro diz: "Quem pode negar a água para que estes não sejam batizados?"

3 - O Espírito Santo desceu sobre Cornélio e os seus, como descera sobre os discípulos no princípio, e Pedro argumenta que, por isso, deviam ser batizados com água. Essa água era simbólica da descida ou do derramamento do Espírito Santo sobre eles. O derramamento de água, portanto, muito bem representaria o derramamento do Espírito Santo.

4 - Os batismos bíblicos já estudados foram feitos, como já mostramos, por afusão ou por aspersão e não é razoável supor que o batismo de Cornélio fosse diferente daquele de Paulo e dos outros milhares de cristãos recebidos como membros da Igreja apostólica, no dia de Pentecostes.

O batismo do carcereiro de Filipos
Resta-nos ainda examinar o batismo do carcereiro de Filipos cujas circunstancias são narradas no capitulo 16 do livro dos Atos.

Essas circunstâncias são todas desfavoráveis a um batismo por imersão. Os batismos do carcereiro e de todos os membros da sua família se realizaram à meia noite, dentro de um cárcere.

Não é provável que houvesse no cárcere ou nas suas dependências um deposito de água ou um tanque de dimensões suficientes para a imersão do carcereiro e da sua família e, mesmo quando houvesse, não iriam contaminar essa água do cárcere com a imersão de uma família inteira.

Há quem suponha que tivessem saído em demanda do rio que ficava fora da cidade, mas essa hipótese é inadmissível, porque, à meia noite, não seria possível que o carcereiro conduzisse dois dos seus presos pelas ruas da cidade, sem serem detidos pelos guardas da cidade.

Diz a Escritura que ele foi batizado logo depois de lavar as feridas dos discípulos.

Esse logo não dá tempo para uma saída fora da cidade, e as palavras de Paulo dirigidas ao carcereiro, no dia seguinte, indicam que não houve nenhuma saída noturna da cadeia, em demanda de um rio: “Venham eles mesmos e nos tirem” (Atos 16:37).

Enfim, não há no batismo do carcereiro e da sua família nenhum indicio de imersões. Se houvesse necessidade de imersões, teriam esperado o dia seguinte para poderem dar as providências necessárias e para que se fizessem as imersões com todo o decoro.

Os imersionistas não raras vezes adiam os seus batismos, aguardando os preparativos necessários para essa forma de batismo.

Não consta que houvesse esses preparativos no caso do carcereiro e da sua família, pois, "ele naquela mesma hora da noite, tomando-os consigo, lavou-lhes as feridas; e foi logo batizado, ele e todos os seus".

Em todo o nosso exame de textos bíblicos não encontramos um só caso provado e incontestável de batismo por imersão.

E não há, em todo o Novo Testamento, um só caso do emprego da palavra baptizo em que esse vocábulo tenha necessariamente o sentido de imergir, mas já provamos que há vários batismos no Novo Testamento que não podem ser imersões.

Recapitulação
Recapitulemos, para dar ênfase ao que já ficou provado.

1 - O batismo corporal de Lucas 11:38 não podia ter sido feito por imersão, porque Marcos explica que esse batismo se fazia por aspersão (Mar. 7:4).

2- O batismo dos israelitas na nuvem e mar não podia ter sido uma imersão, pois passaram pelo mar a pé enxuto.

3 - Nos vários batismos de Hebreus 9:10 estavam incluídas aspersões de água com cincas e de água com sangue, como se percebe de Hebreus 9:13, 19, 21.

4 - As lavagens (batismous) de copos, de jarros (Marcos 7:4) e de leitos (como acrescentam alguns manuscritos antigos) não podiam ser imersões.

5 - O batismo do Espírito Santo não foi uma imersão, mas Ele foi derramado ou desceu sobre os que o receberam.

6 - O batismo de Paulo não foi por imersão, visto como, ficou em pé para ser batizado. Ananias mandou que ele se levantasse para ser batizado e ele, levantando-se, foi batizado.

7 - Havia dificuldades insuperáveis para o batismo de três mil pessoas por imersão no dia de Pentecostes em Jerusalém, devido à escassez de água e devido ao fato da água existente não estar à disposição dos cristãos, para fins de imersões.

8 - Para o carcereiro de Filipos e para a sua família não é provável que houvesse, no cárcere, à meia-noite, a comodidade necessária para batismos de imersão.

9 - Não há nada na narrativa do batismo do eunuco que exija uma imersão.

10 - O batismo de Cornélio e dos seus, de acordo com a narrativa bíblica, parece ter-se dado no mesmo quarto onde estavam reunidos, sem terem procurado água suficiente para se fazer imersões. Parece que a água foi trazida para o quarto, visto como, Pedro pergunta: "Porventura, pode alguém impedir a água para que não sejam batizados estes que receberam o Espírito Santo como nós?" (Atos 10:47).

11 - É provável que João Batista tenha seguido o costume de batizar usado no ritual do Velho Testamento. Vimos que os vários batismos do Velho Testamento se faziam por aspersão ou por derramamento.

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