Diário de um viciado


Depois de muito tempo ele voltou. Os amigos, parece que já nem se lembravam mais dele. Começou a sentir-se como um estranho entre seus próprios familiares. Tudo estava tão esquisito. Parecia que esteve fora muito tempo. Envelheceu no corpo e no espírito. Aquela viagem fora pior que todas as outras que já fizera na companhia dos pais e dos amigos, pois esta ele fizera sozinho.


Para onde fora? Não sabia. Só sabia que esteve muito longe, quase fora de órbita. A lembrança dos lugares que visitara era muito vaga e imprecisa e, por isso, não era capaz de identificar nenhum desses lugares na memória. 

Agora estava de volta, mas não se sentia o mesmo. Tudo parecia mudado! Será que esteve fora muito tempo? Será que seus cabelos embranqueceram? Não! Começou a viajar com dezoito anos e ainda estava com dezoito anos. 

Acontece que o veículo de que se serviu para fazer a viagem é que o envelhecera, destruindo seu poder de raciocinar, prejudicando sua memória a ponto de não reconhecer mais os pais, os amigos, o lar. Embotou de tal modo a sua sensibilidade que já não via mais motivos para viver, trabalhar ou estudar. Sentia-se um trapo, apático, vencido.

Viajou nas asas dos entorpecentes e agora já não era mais o rapaz cheio de vida e de vontade de vencer. E quantos mais não estão se sentindo assim também nesse exato momento? Quantos jovens não estão também autodestruindo-se em troca de uma viagem fantasiosa e fugaz?

Todas essas considerações foram sugeridas pela leitura de uma página do diário de um viciado. Impotente para reagir ele se declarou um vencido, e com dezoito anos apenas!

Se cada jovem pudesse experimentar as consequências antes de aderir às causas, jamais se entregaria aos vícios. 

Infelizmente o jovem inexperiente tem um conceito errado de força, de poder. Acha que ser forte é dizer SIM a todas as insinuações dos "amigos". Contudo é preciso muito mais força para dizer NÃO a um convite.

Dizendo NÃO é que o jovem está mostrando que é mais ele mesmo, pois aceitando, apenas para não parecer fraco, ele está fazendo a vontade dos outros, está se despersonalizando. Está mostrando fraqueza e não força.

Meu jovem leitor, não vá na onda dos inescrupulosos passadores de drogas. Eles querem somente o seu dinheiro, o dinheiro que seu pai ganhou com honestidade e com sacrifícios. Eles não se importam com a sua vida, muito menos com a sua morte. Para eles você não vale mais do que os poucos reais que você tenha no momento.

Mas você tem um pai e uma mãe que o amam, que desde o seu nascimento começaram a acalentar, a seu respeito, os melhores sonhos. Por que transformar esses sonhos em pesadelo? Querem-no cidadão útil, honesto, respeitado. 

Você é inteligente. Você sabe escolher. Analise bem o que seus pais querem para você e o que os abjetos traficantes querem de você e veja o que é melhor. A escolha é sua. Ainda é tempo. Não se barateie, não se despersonalize. Mentalize que ninguém é melhor do que você e concluirá que você também não é pior do que ninguém.

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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