As aflições do mundo


No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo - João 16.33

O sofrimento tem sido a marca cruel, o algoz na vida do ser humano. Frente ao sofrimento deparamos com algumas reações deste. Alguns se revoltam contra Deus e contra tudo. Outros o aceitam com resignação e outros o ainda o recebem como uma dádiva para suas vidas. 


Estamos numa época quando falar de sofrimento não é coisa bem vinda. Aliás, Jesus provocou uma revolução cultural no seu tempo ao apregoar nas Bem Aventuranças, comportamentos que conflitavam com o pensamento filosófico da época quando a humildade não tinha lugar e o sofrimento não podia ter nenhum espaço.

Hoje, a situação continua a mesma, quando, mesmo igrejas, que não aceitam isso, buscam no espírito filosófico e religioso do tempo de Jesus bases e fundamentos para uma fé sem dor, uma vida sem tristeza, uma existência sem agonias e sem sofrimentos. No entanto, o nosso Senhor não nos ensinou isso. 

Senão, vejamos este texto inserido como suas últimas palavras entre seus discípulos. Jesus fala do sofrimento como uma realidade presente:

I – NO MUNDO, PASSAIS POR AFLIÇÕES
Duas coisas importantes vemos aqui: 

a) No mundo. Isto quer dizer que quando nos convertemos ao Senhor não somos tirados deste mundo desta realidade presente. Pelo contrário, continuamos nele, inseridos na sua realidade. 

b) Passais por aflições. 
Outras duas coisas estão inseridas aqui: 

1) Aflições – Em primeiro lugar o Senhor nos mostra que no mundo existem aflições. As lutas, os problemas, as enfermidades, a falta de dinheiro, a perseguição contra o crente. 

2) Passar – A palavra passar nos dá noção de temporalidade. Passar quer dizer que não é permanente. Ele não disse: “No mundo, permaneceis, ficareis permanentemente em aflições...” 

Ele disse passais mostrando que o sofrimento não se perpetua, embora tenhamos de passar por ele. Não sabemos o tempo da provação, do sofrimento sobre nós. Não sabemos qual a dimensão do seu peso sobre as nossas vidas. Mas de uma coisa estamos certos é de que a aflição, a dor, a luta, o sofrimento que vem, passa, não permanece sobre nós. Esta e a satisfação de todo crente.


II – MAS TENDE BOM ÂNIMO
Ter bom ânimo quer dizer: não desanimar, não se entregar, não se deixar levar pelas torrentes e tempestades que nos afligem. Há uma pedagogia divina nas nossas aflições. Tantos livros foram e têm sido escritos por piedosos homens de Deus os quais nos mostram o que nos ensina o sofrimento. 

Vemos Stanley Jones, famoso missionário norte-americano, durante 50 anos na Índia, escrevendo sobre o sofrimento. 

Lemos, o famoso escritor britânico, cujos livros deram origem a famosos filmes das Crônicas de Narnia, C.S.Lewis, descrevendo o sofrimento em meio a grande dor na perda da esposa com câncer. Ouvimos John MacArthur, outro famosíssimo pregador e teólogo norte-americano, recentemente, dizendo em seu livro “O Poder do Sofrimento” (ECC):

“O Sofrimento: produz uma nova compreensão de Deus (Jó 42.2-6); produz nova alegria (I Pedro 1.3-7); intensifica a glória futura (Tiago 1.2-4); traz real consolo (2 Coríntios 1.3-4); produz sabedoria (Jó 28); origina a verdadeira humildade (Tiago 1.9-11)”.

Assim como o soldado exausto recobra as suas forças quando o seu comandante lhe dirige uma palavra de ânimo, possamos nós, crentes em Jesus recobrar nossas forças com estas consoladoras palavras de Jesus.

Uma emocionante e dolorosa experiência pudemos viver no começo de 1998. 

Após uma cirurgia de mastectomia radical da mama direita no Hospital das Clínicas de Botucatu, em 18 de dezembro de 1997, Nilza, minha amada esposa, compareceu no Departamento de Radiologia, onde nosso irmão em Cristo, Antonio César Pernomian, Físico Radiológico da UNESP/Botucatu, a estaria atendendo durante as primeiras 30 aplicações de radioterapia e as últimas 5, mais sofisticadas, no Hospital Oncológico de Jaú.

Quando chegamos Nilza encontrou duas amigas, ilustres professoras como ela, que também faziam a radioterapia. Uma delas perguntou o que ela estava fazendo ali. E quando souberam que iria fazer radioterapia, pois era o mesmo problema delas, uma disse: “Você não Nilza. Você ainda é muito jovem para isso”. Mas a segunda, muito criteriosa disse: “Não se preocupe, pois cada caso é um caso”, embora ela mesma já tivesse tido o segundo câncer e tirado a outra mama.

No entanto, como as coisas não são como a gente quer, o tratamento das três deveria seguir o seu curso. Passados alguns meses, a primeira, partiu para a eternidade, para estar com o Senhor.

Depois de alguns anos, dois ou mais, a segunda amiga, num quadro de sofrimento, teve várias metástases que tomaram grande parte de seu corpo.

Nos seus últimos dias de vida fui visitá-la no hospital. Quando cheguei à porta do seu quarto, na Enfermaria da Ginecologia, um de seus irmãos me barrou. Estava muito entristecido e creio que não queria que eu visse como se encontrava a enferma. Ele não me conhecia. Eu disse a ele que era pastor. 

Mesmo assim encontrei resistência. Mas, quando disse que a minha esposa, que era amiga da irmã dele, e que também se tratava de câncer de mama com a irmã dele o rosto daquela pessoa se descontraiu e educadamente me convidou para que eu me aproximasse daquele leito de sofrimento, embora ela já se encontrasse em estado de coma, onde pude cumprimentar os familiares que a rodeavam e ali tive oportunidade de orar pela enferma, em seus últimos momentos, bem como por toda a família. A grande verdade é que a mesma dor nos une e nos solidariza para o consolo, o conforto.

Creio que o fato do Senhor Jesus não nos tirar deste mundo, na nossa conversão, é justamente para oferecermos amor, carinho e consolo para com todos aqueles, indistintamente, que sofrem. 

III – EU VENCI O MUNDO
O fato de Jesus ter vencido o mundo Ele o fez por nós sua Igreja, comprada, redimida pelo seu precioso sangue. Aliás, tudo o que Jesus realizou aqui na terra foi pelos seus eleitos que Ele tanto amou, escolheu, elegeu desde os tempos eternos.

Assim, a Igreja repousa na confiante esperança de sempre estar vencendo, de sempre ser vitoriosa em toda e qualquer circunstância, inclusive sobre a própria morte. 

A Igreja crê na companhia constante do seu Senhor; a Igreja confia na sua permanente ajuda; a Igreja aguarda o poderoso dia da Ressurreição. 

Tristeza, dor, sofrimento, morte e tantas outras coisas tristes e negativas deste mundo não mais existirão no grande e eterno Dicionário de Deus, nosso Pai Celestial. 

Todas estas palavras foram banidas por Jesus na sua redentora morte, na sua poderosa ressurreição, na sua grandiosa ascensão aos céus donde reina para todo o sempre em nossos corações.

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Antonio Coine é Pastor Emérito da Igreja Presbiteriana Monte Sião (Botucatu), atuando como ministro há 40 anos na Igreja Presbiteriana do Brasil. Formado em Teologia pela Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil - SP. Licenciado em Filosofia. Mestre em Divindade e Doutor em Ministério pelo Seminário do Canadá em Manitoba/CA. Foi pastor da Igreja Presbiteriana do Canadá e missionário dessa denominação entre os povos de Língua Portuguesa, quando plantou a Igreja Presbiteriana de Língua Portuguesa do Presbitério West Toronto, IPC que foi organizada em outubro de 1988. É autor do livro "Das Sagradas Escrituras - Uma coletânea de esboços de sermões para um ano litúrgico - Vol. 1".

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